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CULTURA DA QUÍMICA

Em nome dos pesquisadores.




Exposição celebra o centenário da Academia Brasileira de Ciências no Museu do Amanhã, no Rio.

Créditos: Pesquisa Fapesp


No dia 3 de maio de 1916, nas dependências da Escola Polytechnica do Rio de Janeiro, um grupo de pesquisadores fundou a Sociedade Brasileira de Ciências, com o objetivo de defender a cultura científica e a pesquisa básica no país. A iniciativa teve o respaldo de intelectuais e pesquisadores de áreas como geologia, arqueologia e matemática, sob a liderança de Henrique Morize (1860-1930), geógrafo, engenheiro e astrônomo francês naturalizado brasileiro que dirigiu o Observatório Nacional por 20 anos. Em 1921, espelhando-se nas tradicionais academias científicas de países como França e Estados Unidos, a sociedade mudou de nome para Academia Brasileira de Ciências (ABC), que no mês passado comemorou seu centenário. No Congresso Nacional, em Brasília, foi montada uma exposição sobre as principais descobertas científicas dos últimos 100 anos. No Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, uma mostra com painéis interativos narra a história da instituição e destaca 18 cientistas brasileiros de diversas áreas, como o físico César Lattes e a geógrafa Bertha Becker.

Nos primeiros anos, a instituição dedicou-se a promover conferências e a receber visitas de cientistas ilustres. Em 1925, por exemplo, Albert Einstein esteve no Brasil e participou de um encontro com membros da ABC no Rio. Um ano depois, a academia recebeu a cientista polonesa Marie Curie, ganhadora de dois prêmios Nobel e a primeira mulher a ser laureada. Tanto Einstein quanto Marie Curie se tornaram membros correspondentes da instituição.



Em 1924, o Pavilhão da Tchecoslováquia, no Rio, foi cedido pelo governo brasileiro para se tornar a primeira sede própria da ABC...

Créditos: AUGUSTO MALTA/ACERVO MIS RJ


“Diferentemente de outros países, o Brasil consolidou suas práticas de pesquisa tardiamente, no final do século XIX. Não existia uma cultura capaz de atribuir valor e justificar investimentos na atividade científica”, explica o historiador Shozo Motoyama, do Centro Interunidade de História da Ciência da USP. “Uma das principais bandeiras da ABC, em sua origem, era lutar pela institucionalização da ciência brasileira, por meio da difusão do conhecimento.”

A partir da década de 1920, a ABC dedicou-se a apoiar iniciativas de educação científica. Uma das primeiras ações foi participar, em 1923, da criação da Rádio Sociedade (atual Rádio MEC), a primeira emissora de rádio do país. Membro da academia na época, o médico, antropólogo e escritor Edgar Roquette-Pinto, um dos pioneiros da radiodifusão, convenceu a ABC a comprar equipamentos para montar a rádio no Rio. A emissora tinha um propósito educacional, com programas de literatura, música clássica e ciência. “Os fundadores da ABC argumentavam que, para conseguir o desenvolvimento do país, inclusive o econômico, seria necessário difundir a cultura científica”, conta Motoyama.



...decreto de 1934, assinado por Getúlio Vargas, reconheceu a academia como instituição de utilidade pública.

Créditos: ACERVO ABC


Segundo o historiador, em sua origem a instituição não tinha a finalidade de prestar assessoria científica ao governo brasileiro, ao contrário da missão original das academias de outros lugares do mundo. A Académie des Sciences, na França, por exemplo, foi fundada por Luís XIV em 1666 com o objetivo de patrocinar a pesquisa científica. Nos Estados Unidos, a National Academy of Sciences foi criada graças a uma lei aprovada no Congresso e assinada pelo presidente Abraham Lincoln em 1863. “Nesses casos, os governos já reconheciam a importância da ciência. No Brasil, a ABC foi uma iniciativa civil, dos próprios cientistas, em busca de reconhecimento”, explica o físico e historiador da ciência Olival Freire Junior, professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Em 1924, a entidade participou da fundação da Sociedade Brasileira de Educação, que teve grande influência na criação do Ministério da Educação e Saúde, em 1930. Foi nessa época que a ABC começou a ganhar expressão política. Nos anos seguintes, liderou o movimento que reivindicou a criação, em 1951, do Conselho Nacional de Pesquisas, atual Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). A proposta de criação do órgão foi elaborada por uma comissão da ABC presidida pelo almirante Álvaro Alberto da Motta e Silva, engenheiro formado pela Escola Polytechnica do Rio de Janeiro que realizou pesquisas em explosivos químicos. Álvaro Alberto esteve à frente da ABC em dois períodos: de 1935 a 1937 e de 1949 a 1951, ano em que deixou a entidade para assumir a presidência do recém-criado CNPq.



Henrique Morize: primeiro presidente da ABC.

Créditos: ACERVO ABC

Também em 1951, meses depois, membros da ABC participaram da fundação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Pouco antes, em 1948, a academia havia apoiado a criação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Com o objetivo de representar diversas sociedades científicas do país, a SBPC passou a atuar em conjunto com a ABC na defesa dos interesses da comunidade científica.

O trabalho de aconselhar órgãos do governo federal em assuntos científicos ganhou expressão na década de 1970, ainda durante o regime militar. Nesse período, o governo federal elaborou o primeiro e o segundo Plano Básico de Desenvolvimento Científico e Tecnológico e reconheceu o papel da ABC como parte central do sistema de ciência e tecnologia do país. “A academia começou a emitir pareceres e a realizar estudos para o governo. Os recursos recebidos do governo passaram a contribuir para a manutenção da ABC”, conta Eduardo Moacyr Krieger, vice-presidente da FAPESP e presidente da ABC entre 1993 e 2007. Em sua gestão, Krieger deu novo fôlego a essa missão ao criar grupos de trabalho dedicados à elaboração de estudos e simpósios. Seus resultados foram publicados em livros, para consolidar o conhecimento em torno dos temas abordados e auxiliar gestores na condução de políticas públicas.



Em 1923, diretores da ABC participaram da criação da Rádio Sociedade, que passou a funcionar nas dependências da academia.

Créditos: ACERVO ROQUETTE-PINTO/ABL

Em 2004, por exemplo, a instituição apresentou ao governo federal propostas para a reforma do ensino superior. Uma delas era privilegiar a interdisciplinaridade nas grades curriculares. O documento serviu de subsídio à criação de novas universidades federais. Em 2010, outro documento abordou a questão das águas ao analisar o funcionamento e a gestão dos sistemas hídricos no país. No campo da energia, especialistas ligados à ABC elaboraram diagnóstico sobre biocombustíveis mostrando que a produção do etanol de cana-de-açúcar não prejudicaria a segurança alimentar do planeta. O último trabalho foi publicado em 2014, sobre medicina translacional, que busca acelerar a interação entre a pesquisa de laboratório e a pesquisa clínica.

Atualmente, a ABC tem 960 acadêmicos em seus quadros. Desse total, 535 são membros titulares, 198, correspondentes estrangeiros e 58, associados. Outros 167 são jovens cientistas que ficam ligados à academia pelo período de cinco anos e há dois membros colaboradores. A maioria dos acadêmicos atua nas áreas de ciências biomédicas, física, matemática e química. De acordo com o novo presidente da ABC, Luiz Davidovich, professor do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IF-UFRJ), a instituição pretende ampliar seu contato com a sociedade. “Vamos investir em iniciativas de comunicação científica capazes de tornar a ABC mais conhecida. Queremos estar mais presentes na internet e nas redes sociais”.



Em visita ao Observatório Nacional, em 1925, o físico Albert Einstein reuniu-se com membros da ABC.

Créditos: ACERVO ABC

Para Shozo Motoyama, o trabalho de divulgação científica da ABC poderia ser mais expressivo. “Para o brasileiro em geral, a ABC ainda é uma ilustre desconhecida. A National Academy of Sciences dos Estados Unidos tem um museu aberto à população, o Marian Koshland Science Museum, em Washington, com exposições que mostram ao público a relação entre a ciência e o cotidiano”, diz Motoyama.

Outro desafio da ABC foi lembrado pelo matemático Jacob Palis, professor titular do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa) e presidente da ABC entre 2007 e maio de 2016. Em sua apresentação na cerimônia do centenário no Museu do Amanhã, no Rio, ele contou que uma das atuais prioridades da instituição é encorajar a atuação das mulheres na ciência. “Queremos descobrir mulheres para serem eleitas pela academia. A presença feminina deve ser mais marcante.” Hoje, a ABC abriga 826 homens e apenas 134 mulheres.


Nota do Managing Editor - Esta matéria de autoria de Bruno de Pierro foi veiculada primeiramente na revista Pesquisa Fapesp, edição 244, de junho de 2016.


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