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ARTIGOS DE OPINIÃO

As manchas do leopardo.


No conto "Escrita de Deus", o escritor argentino Jorge Luis Borges imagina o protagonista, preso, decifrando a palavra original da criação divina na leitura das manchas de um leopardo, seu colega de cativeiro. A conclusão é tão surpreendente que o personagem considera desnecessária sua divulgação.

A observação desse singular felino é sempre capaz de promover outras confusões. É o que ocorre, por exemplo, quando tomamos, pelas manchas, um leopardo por outro. Esses equívocos podem ser causados por deficiência de observação. Desinformação e delírio podem, também, comprometer a percepção. Essa reflexão pode ser útil se aplicada à observação dos processos de formação de ensino superior e organização da pesquisa no Brasil.

Esses registram, de fato, êxitos consideráveis. Seja na quantidade (atingimos quase 6 milhões de matrículas por ano, um crescimento de 13% em relação à taxa de expansão) seja no conteúdo (alcançamos o 13º lugar na produção de artigos científicos no mundo).

O Brasil produz ciência em ritmo superior ao dos países mais desenvolvidos. Para se ter uma ideia, em 1981 a produção científica da França equivalia a mais de 12 vezes a do Brasil. Hoje essa relação caiu para duas vezes.

Introduzimos também um marco legal que cria mecanismos de gestão da propriedade intelectual pelas universidades, permitindo aos diversos setores econômicos a incorporação desse conhecimento em seus processos e produtos inovadores, com ganhos para todos: pesquisadores, universidades e empresas.

No ensino superior, as matrículas saltaram de 1.945.000 em 1998 para 5.954.000 em 2009. Também na pós-graduação os números são significativos. Em 1999 o Brasil contava com cerca de 85 mil alunos matriculados em programas de mestrado e doutorado e possuía um estoque de um pouco menos de 20 mil titulados. Em 2009, alcançamos 161.068 matriculados e mais de 50 mil titulados. À primeira vista, portanto, nosso sistema de formação e produção do conhecimento cresce de forma a vitalizar a cultura e alimentar o desenvolvimento econômico em seu eixo mais dinâmico, a inovação. É o nosso leopardo, caçador objetivo, perspicaz e implacável. Mas será que não há outro?

Falta uma agenda nacional associando a formação educacional, a pesquisa, a inovação e o desenvolvimento.

Pelo lado da formação podemos de imediato identificar que 75% das matrículas se concentram no setor privado, cuja participação na produção científica hoje não ultrapassa 2% do total. Por outro lado, a produção de conhecimento e a dinâmica de inovação de nossa economia entretêm relações promissoras, mas ainda incipientes. O recente levantamento do IBGE mostra que quase 40% de nossas indústrias foram inovadoras entre 2006 e 2008, mas apenas 10% das inovadoras tiveram trabalhos de cooperação com as universidades, institutos de pesquisa ou mesmo com outras empresas. Estima-se ainda que menos de um terço das universidades (públicas) tenham implantado processos institucionais de transferência de conhecimento ao setor produtivo. O resultado é que o imenso esforço nacional de pesquisa não encontrou ainda os canais adequados para manifestar plenamente seu significado econômico.

É, portanto, urgente, admitirmos a possibilidade de haver mais de uma fera circulando em nossas matas. É necessário reconhecer nossos feitos, avanços e realizações. Mas é essencial admitir, em respeito aos êxitos alcançados, as ações não realizadas e as conquistas que não se construíram. Essas ausências devem inspirar nossa reflexão para ações futuras.

Está ainda por ser construída uma política que expresse uma agenda nacional associando a formação de recursos humanos e a organização da pesquisa com o desenvolvimento e a inovação. A forte articulação entre os ministérios da ciência e tecnologia, da educação e da indústria e desenvolvimento, pelo menos, é essencial para a construção de estratégias indutoras da cooperação, que não dependam exclusivamente das interações diretas e voluntárias entre expoentes da pesquisa nacional e empresários capazes de mobilizar e gerenciar o conhecimento comprometido com a inovação.

Seria bom se, mantendo a diversidade do espectro, elegêssemos áreas prioritárias de formação no Brasil. Deixaríamos de nos inquietar pela sensação súbita de falta de engenheiros e de outros profissionais necessários ao desenvolvimento. Passaríamos a debater ações e conteúdos de formação associados a fatores de emprego e de competitividade. As atividades de pesquisa seguem em seu crescente fértil comemorando, a cada ano, volumes elevados e níveis de excelência. Nesse caso seria, também, agradável eleger temas de interesse para o futuro da nação.

Seria bom se achássemos esse leopardo caçando por aí. Seria ótimo se soubéssemos identificar em suas manchas alguma previsão do futuro.


Luiz Roberto Liza Curi, sociólogo, é diretor de ensino e pesquisa da SEB SA. Foi secretário de Cultura e presidente da Cia de Desenvolvimento de Alta Tecnologia de Campinas e diretor nacional de Políticas de Ensino Superior no Ministério da Educação (1997-2002).

Evando Mirra de Paula e Silva, engenheiro, é professor emérito da UFMG e diretor da Academia Brasileira de Ciências (ABC). Foi presidente do CNPq e do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos.

Valor Econômico.


Nota do Scientific Editor: o presente artigo, apesar publicado em abril de 2011, mereceu nosso resgate dada sua oportunidade e importância no debate "em senso largo" que se trava em nosso país sobre formação de recursos humanos, interação academia-setor produtivo e inovação e suas implicações para o desenvolvimento nacional.


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