Laboratório de Química do Estado Sólido
 LQES NEWS  portfólio  em pauta | pontos de vista | vivência lqes | lqes cultural | lqes responde 
 o laboratório | projetos e pesquisa | bibliotecas lqes | publicações e teses | serviços técno-científicos | alunos e alumni 

LQES
pontos de vista
artigos de revisão

artigos de opinião

editoriais

entrevistas

divulgação geral

divulgação LQES

 
ARTIGOS DE OPINIÃO

Química: Ciência, Tecnologia e a Qualidade de Vida

Que nossas primeiras palavras sejam de agradecimento aos Organizadores deste oportuno e importantíssimo evento. Para nós, reveste-se de relevância ímpar a possibilidade de podermos estar aqui discutindo tema de tão grande significado para a sociedade em geral.

À oportunidade, soma-se um momento bastante especial, no qual a divulgação científica e tecnológica de qualidade ganha novo patamar em nosso país, graças à consolidação de vários veículos de comunicação e ao surgimento de novos outros, que não só apresentam as conquistas da ciência e tecnologia nacionais, mas também as do exterior.

Como contraponto, a sociedade, cada vez mais, vem compreendendo a importância da ciência, da tecnologia, das humanidades. Cada vez mais cresce a percepção de que o desenvolvimento cultural e material - capaz de sustentar um novo modo de vida, que permita inclusive o exercício da liberdade, da criatividade e da convivência humanizadora de nossas relações -, por exemplo, só têm a ganhar com a preservação do meio ambiente [1]. Desta compreensão, acreditamos, surge de forma cada vez mais clara, como tão bem colocaram os organizadores deste evento, "... [uma] apropriação dos processos e produtos do conhecimento científico por parte dos cidadãos".

Dada nossa formação, vimos nos ocupando, cada vez mais e mais, de uma área específica da atividade científica e tecnológica: a Química.

Parecem-nos relevantes algumas considerações iniciais. Uma rápida observação do meio que nos cerca possibilita-nos constatar a presença da Química em seus diferentes aspectos e nos mais diversos pontos. Não é abusivo afirmar que ela está presente em tudo. Todos os objetos que estamos usando hoje, aqui mesmo neste ambiente, passaram, de algum modo, por uma apropriação do conhecimento químico. Talvez seja essa onipresença que, por vezes, contribui para fazer a Química mal-amada pelas mídias, amiúde preocupadas mais em focalizar suas manifestações negativas e visíveis: fumaça das fábricas, poluição, etc., deixando de iluminar o universo amplo de seus aspectos positivos.

Um aspecto singular da Química é o fato de ser ela uma ciência na qual, para cada componente, existe seu correspondente na atividade industrial. Tal aspecto faz com que a Química tenha um impacto altamente significativo sobre a vida econômica do país, em razão do setor industrial: volume de produção, número de empregos gerados, etc., indo muito além disso no desempenho de um papel estratégico, dado alimentar, direta ou indiretamente, todas as outras atividades, inclusive as sociais.

Dentro de uma economia que contempla o desenvolvimento industrial como fator de progresso, a manutenção da competitividade das indústrias e seu desenvolvimento estão estreitamente ligados à ciência química e, sobretudo, ao sucesso de sua pesquisa fundamental: única capaz de garantir a geração e o progresso de novos conhecimentos da matéria e suas transformações.

Apenas para que se tenha uma idéia, o setor químico industrial brasileiro movimentou cerca de 40 bilhões de dólares em 2001 [2]. Destes, cerca de 50% devem-se à produção de produtos químicos de uso industrial, isto é, aqueles que irão sofrer transformações em outras indústrias; os produtos farmacêuticos ficaram com aproximadamente 15%; os de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos, perto de 8%; adubos e fertilizantes, 7%; sabões e detergentes, ao redor de 5%; defensivos agrícolas, 6%; tintas esmaltes e vernizes, cerca de 4% e, outros, um pouco acima de 4%.

Estes números, mormente quando se considera a economia de um país em desenvolvimento, como o Brasil, ratificam aquilo que vários autores têm lembrado, ou seja: sem os medicamentos, sem as moléculas terapêuticas, a saúde e a vida de nossos concidadãos cairia a níveis alarmantes. Sem tintas, sem pigmentos, sem cremes... a vida seria muito triste, viveríamos praticamente em preto e branco, os objetos teriam pouco brilho e o metais seriam passíveis de fácil corrosão. Como faríamos para obter as formas coloridas e complexas que povoam nosso quotidiano, se não tivéssemos recurso aos polímeros e plásticos? Sem pilhas, sem baterias, a comunicação, com certeza, seria mais difícil. Estes exemplos podem se multiplicar se consideramos que sem a Química nossa alimentação, nossa higiene, nosso vestuário, nossa própria vida seriam radicalmente diferentes.

Dos números apresentados, ressalta ainda um fato: o crescimento que vem experimentando as áreas de higiene pessoal e de sabões e detergentes em relação às áreas tradicionais da indústria química. Tratam-se de áreas nas quais se dá a produção de produtos de alto valor agregado, geralmente caros e sofisticados. Devem também ser destacados os produtos farmacêuticos. O impacto destes é bastante perceptível na sociedade brasileira e, de certo modo, acompanha uma tendência mundial.

Para avaliar os impactos do conhecimento científico sobre a qualidade de vida, sobretudo quando colocamos a questão da expectativa de vida e, conseqüentemente, de seu relacionamento com a população mundial, alguns exemplos afiguram-se-nos como bons. Dois estudiosos, De Meis e Leta, ao comentarem este aspecto, asseveram que foram necessários 19 séculos para que o número de habitantes da terra fosse triplicado e, menos de dois séculos, para que a população sextuplicasse e atingisse hoje o fantástico número de 6 bilhões de habitantes [3]. Estes autores (e outros, ainda,) são de opinião que tal crescimento exponencial deveu-se aos métodos de assepsia, às vacinas, aos antibióticos, aos fertilizantes e às novas técnicas agrícolas, que permitiram um grande aumento (longe, ainda, de ser o suficiente !) da produção de alimentos.

Fica claro que o desenvolvimento da pesquisa química deve se dar de modo estritamente ligado a uns tantos imperativos sócioeconômicos novos, de importância crescente, relacionados à evolução de fenômenos de natureza geopolítica: novas condições econômicas (custo e disponibilidade de matérias-primas e energia) e necessidade do encontro de novas alternativas tecnológicas e industriais. Finalmente, dentro da nova ordem política que estamos vivenciando, este desenvolvimento deve estar direcionado às necessidades sociais ligadas à melhoria da qualidade de vida e do meio ambiente, as quais poderiam ser traduzidas na melhoria da alimentação e das condições de trabalho; na eliminação e/ou utilização dos resíduos industriais; na luta contra a poluição; na proteção ao consumidor; na segurança para utilização dos produtos químicos, para citar apenas algumas.

Este último aspecto, ou seja - segurança para utilização de produtos químicos -, permite-nos explicitar uma preocupação cada vez mais constante em nossas reflexões: a disseminação do conhecimento químico em todos os níveis, acompanhada de uma formação - de qualidade -, de profissionais que possam executar esta tarefa com as responsabilidades a ela inerentes.

Conhecimentos básicos de química, hoje, são importantes mesmo para o cidadão comum. Um fato ilustra bem este aspecto: nos hospitais e prontos-socorros é comum, aliás muito comum, aparecerem cidadãos com problemas de intoxicação, determinados pelo uso de produtos de limpeza incompatíveis como, por exemplo: utilização de produtos à base de cloro, misturados a produtos à base de amoníaco. Não cabe, neste momento, declinarmos as diferentes marcas. Em ocorrências como estas visualiza-se, mais do que nunca, a importância do conhecimento e da informação, neste caso, de Química, na formação das pessoas, até para que possam exercitar a cidadania [1].

O que, até então, aqui foi colocado, de certa forma focaliza o impacto da Química na qualidade de vida. A questão que se põe é: seria possível perspectivar-se quais desenvolvimentos em Química teriam novos e outros impactos sobre a qualidade de vida das populações?

Trata-se de pergunta difícil, mesmo porque, até que as inovações cheguem ao dia-a-dia dos cidadãos, têm lugar uma série de negociações e mediações, tanto de natureza política, quanto econômicas, muitas delas, infelizmente, ditadas pelo poder financeiro e pelo mercado. De qualquer forma, mesmo correndo o risco de cometer erros e omissões, vale levantar alguns pontos.

O primeiro, certamente, passa pela questão ambiental, questão esta que todos admitimos tratar-se de uma das maiores questões das sociedades em desenvolvimento. Quem habita as grandes e médias cidades do Brasil, assim como regiões com forte concentração industrial tem esta questão bem presente. Tudo dever ser feito na direção do encontro de soluções alternativas, procedimentos limpos e viáveis visando não só à despoluição como a gestão do lixo industrial e doméstico. Nesta perspectiva estão questões relacionadas aos metais pesados, os derivados organo-halogenados - responsáveis pelo efeito estufa -, os gases NOx, CO e SO2 contidos nos efluentes líquidos e gasosos e o lixo sólido.

Uma política industrial para o meio ambiente não pode acomodar-se ao uso de certas moléculas, tais como fungicidas, inseticidas ou adubos, e nem a Química - enquanto setor industrial -, acomodar-se a certos procedimentos industriais que conduzem a grandes perdas, rejeitos industriais ou produtos secundários, muitas vezes lançados como efluentes. É importante perseguir uma direção que leve à realização de catalisadores cada vez mais seletivos e com alto rendimento, sínteses de produtos químicos que não dependam do uso de solventes, processos cada vez mais poupadores de matérias-primas e energia, procedimentos limpos e materiais biodegradáveis. Tais colocações têm feito parte do que tem sido chamado de Química Verde [4], cujos impactos sobre a qualidade de vida devem ser significativos.

Um segundo ponto, de importância não menos crucial nesta prospectiva, passa pelos fármacos. Vale lembrar que quase 60% dos medicamentos hoje em uso provêm de substâncias naturais extraídas de plantas, animais, microorganismos e organismos marinhos, etc., com elevada atividade biológica. Certamente este é o alvo da grande cobiça (?!) pela diversidade brasileira, sobretudo da amazônica [5]. Alguns autores estimam que, hoje, no mundo, cerca de 500.000 espécies de plantas ainda são desconhecidas, e que dentre as 300.000 já conhecidas, somente 2.000 estão sendo submetidas à pesquisas visando aplicação médica[6].

Por outro lado, temos a síntese de novas substâncias que, graças a uma ferramenta absolutamente fantástica - a Síntese Combinatória -, permite atualmente a obtenção de extraordinárias bibliotecas de novas substâncias, com centenas ou milhares de exemplares. Em virtude dos meios modernos de multiplicação, robotização e extrapolação, é possível, de maneira cada vez mais rápida, testar as atividades destas moléculas frente ao DNA, enzimas, sistemas de transporte, mediadores neurológicos, etc. Tal situação abre possibilidades importantes para o enfrentamento de velhas e "renovadas" doenças como a tuberculose, malária, esquistossomose, dengue e as "novas" como Aids, Alzheimer, Parkinson, e até mesmo a da vaca-louca. A propósito deste aspecto, em 2001, em conferência proferida na Academia Brasileira de Ciências [7], chamávamos atenção para as palavras de Czarnick, um dos pais da Síntese Combinatória, que estima que tenhamos cerca de 10200 moléculas com peso molecular (soma dos pesos atômicos de todos os átomos que constituem uma molécula) igual ou inferior a 850. Destas, conhecemos talvez menos de 108. Por conseguinte, temos que reconhecer que todas as moléculas registradas nas nossas volumosas publicações não passam de uma pequena fração do universo que podemos estimar.

Os dois aspectos colocados com relação ao uso de substâncias naturais e de síntese permitem que se anteveja a possibilidade de grandes progressos, com concomitante impacto sobre a qualidade de vida, graças não só ao desenvolvimento de novos fármacos mas, também e principalmente, ao acesso de toda população.

Como terceiro ponto temos os materiais. Embora não sendo uma área tradicional da Química, já se coloca como uma das mais ativas e promissoras, com perspectivas de impacto sobre a qualidade e o modo de vida. Isto se deve em grande parte não só às novas demandas de indústrias de diferentes segmentos, mas também da própria sociedade. Tratam-se, muitas vezes, de materiais de substituição, muitas outras, de novos materiais, que devem sujeitar-se a critérios estritos nas relações custo/benefício (qualidade e performance) e reciclagem. Fica cada vez mais claro que os materiais devam ser tratados como um ciclo no qual se observa a gênese, a vida útil, a morte e sua pós-vida (ou nova vida!).

Colocado desta forma, e tendo como base um conhecimento muito bem fundamentado, os fabricantes de automóveis podem escolher seus polímeros, novos tipos de aço, ligas de alumínio, catalisadores automotivos, etc., bem como a construção civil pode se beneficiar de materiais mais apropriados: cimentos, cerâmicas, vidros, revestimentos, polímeros, madeiras e aglomerados... dentre tantos outros. Isto sem falar em colas, adesivos, pinturas e proteções, tecidos, ecomateriais para remediação ambiental de efluentes industriais, etc. De uma imensa lista, não podem ficar fora os chamados materiais funcionais: isolantes, semicondutores, supercondutores, magnéticos e os polímeros condutores, alguns destes, materiais fundamentais para o avanço da indústria eletrônica e microeletrônica, aquela mesma que constrói CDs, chips, memórias para computador, etc.

Vale destacar a mais nova vertente da área, aquela de materiais adaptados para as nanociências, tais como nanotubos, nanopós, nanopartículas, nanoinclusões e a funcionalização química, esta visando a viabilizar circuitos eletrônico-moleculares com a capacidade de realização de operações lógicas. Os impactos destes últimos sobre o modo de vida são, ainda, uma incógnita dependendo de sua produção em larga escala e, especialmente, da assimilação, ou não, de profundas mudanças de paradigma e rupturas tecnológicas.

São, ainda, também uma incógnita, os impactos que ocorrerão sobre o modo e qualidade de vida, relativamente aos mais recentes desenvolvimentos da genética - mais notadamente a genômica -, nos quais a química funciona como um dos parceiros importantes por excelência. O período "pós-genoma" é território da proteômica que, certamente, demandará todo o conhecimento da síntese química clássica ou biotecnológica, perspectivando melhor utilizar os dados estruturais e de reconhecimento molecular visando a atingir o que vem sendo chamado de terapia genômica.

Como palavras finais, fortemente decorrentes de uma reflexão sobre a temática deste evento, somos animados pelo sentimento de que está tendo lugar uma evolução positiva na maneira de pensar dos pesquisadores, não só influenciada pelo ambiente acadêmico, mas também pelos aspectos sociais e econômicos. Há um sensação de que os laboratórios, antes verdadeiras cidadelas, começam a abrir-se, cada vez mais e mais. Começa a surgir uma percepção frente às novas exigências da sociedade, o que faz com que questões como desenvolvimento sustentável, meio ambiente, saúde, educação, emprego, entre outras, estejam agora muito mais vivas do que antes, a despeito das dificuldades de financiamento pelas quais passa a atividade científica em termos nacionais.

Ratificamos, aqui, aquilo que para muitos é bastante claro: somente uma Ciência e Tecnologia, fortemente associadas à Educação - que levem em conta, entre outros, critérios de rentabilidade do investimento público, que proponham uma inovação conseqüente, que acompanhem as mudanças de paradigmas e as rupturas tecnológicas -, terão chance de fazer face a tantos desafios e de impactar, de forma positiva, o modo e a qualidade de vida de nossa sociedade.


Referências

[1] O.L. Alves, (Com)Textos de um Presidente de Sociedade Científica, Axxis, Campinas, 2000.

[2] Fonte: Anuário da Associação Brasileira das Indústrias Químicas, ABIQUIM, 2001.

[3] L. de Meis e J.Leta, O Perfil da Ciência Brasileira, Editora UFRJ, Rio de Janeiro, 1996.

[4] P.T. Anastas and T.C. Williamson, eds., Green Chemistry: Designing Chemistry to the Environment, American Chemical Society, Washington, 1996.

[5] E. Barreiro e O.L. Alves, Biodiversidade e Soberania..., Editorial de Química Nova, ano 23, número 6, 2000.


[6] http://www.cnrs.fr/Chimie/ consultado em fevereiro de 2002.

[7] O.L. Alves, O CNPq e a Química no Brasil : políticas, programas e resultados. Palestra proferida na Academia Brasileira de Ciências, maio de 2000.


Nota do Managing Editor: Este texto serviu de base para a apresentação do Professor Oswaldo Luiz Alves na mesa-redonda: "Ciência, Tecnologia e o Modo de Vida", que teve lugar na Estação Ciência, em São Paulo, SP, dentro da programação do evento "Conhecimento Científico e Vida Cotidiana", em setembro de 2002. Participaram ainda da mesa os professores Carlos Henrique de Brito Cruz (Reitor da Unicamp) e José Roberto Leite (Presidente da Sociedade Brasileira de Física).

 © 2001-2017 LQES - lqes@iqm.unicamp.br sobre o lqes | políticas | link o lqes | divulgação | fale conosco