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ARTIGOS DE OPINIÃO

Álcool : o Brasil no foco mundial.


O Brasil está diante de uma oportunidade única. O mundo descobriu agora e está altamente interessado em uma tecnologia que criamos há 30 anos: a de transformar vegetais, sobretudo a cana-de-açúcar, em álcool combustível. Com a corrida por novas fontes energéticas e a necessidade de se reduzir a dependência por petróleo, haverá uma inevitável ampliação dos investimentos no mercado mundial de etanol. Para aprofundar o tema e mostrar todas as faces deste negócio, o JC publica, de hoje até a próxima sexta-feira, a série de reportagens O novo ciclo da cana. Os textos são de Angela Fernanda Belfort.

O que o homem mais rico do mundo e criador da Microsoft, Bill Gates, o megainvestidor húngaro George Soros, os fundadores do Google, e o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, têm em comum? Todos estão interessados na produção de etanol - o álcool combustível -, que se transformou numa alternativa ao petróleo para países desenvolvidos. Governos e iniciativa privada estão buscando soluções para os seus problemas de energia. E, nesta busca por um combustível renovável e pouco poluente, todos estão levando em consideração a bem-sucedida experiência brasileira com o álcool.

O que os países desenvolvidos estão fazendo agora, adicionar o álcool à gasolina, o Brasil já faz há 30 anos. Mas essa febre pelo álcool brasileiro neste momento pode ser considerada a mola propulsora de um novo ciclo da cana-de-açúcar, principal matéria-prima para a produção do etanol. Existem projetos para a implantação de 90 novas unidades produtoras de açúcar e álcool no Centro-Sul até 2010, segundo um levantamento feito pela União da Agroindústria Canavieira de São Paulo (Unica). O plantio nacional da cana-de-açúcar será ampliado em mais de 3 milhões de hectares, saindo dos atuais cerca de 5,6 milhões de hectares. A expectativa é passar a fabricar 30 bilhões de litros de álcool em 2011.

"Se for mantido um ambiente de livre mercado a nossa expectativa é que esses projetos se tornem realidade e essa é uma grande oportunidade de negócios para o Brasil", diz o diretor técnico da Unica, Antonio de Pádua Rodrigues, acrescentando que a demanda pelo álcool está aumentando no mundo inteiro.

O programa do álcool brasileiro já foi elogiado até por Bush, que mesmo tendo ligações com a indústria petrolífera, condenou publicamente o "vício americano pelo petróleo" e considerou interessante a tecnologia do veículo bicombustível desenvolvida no Brasil. Elogios ao programa foram publicados em jornais como o The Financial Times, The Washington Post e The New York Times. "Achei simplesmente incrível o fato de o Brasil, um país com uma fração dos recursos e dinheiro dos Estados Unidos, estar se distanciando da gasolina", disse o jornalista David Pogue, na sua coluna publicada no The New York Times, em maio último, se referindo ao programa do álcool brasileiro. O que surpreende o mundo é o fato de que no Brasil a gasolina tem 20% de álcool e que quase 20% dos veículos leves do País podem usar somente o álcool combustível para se locomover. Ou seja, o País conseguiu substituir uma parte da gasolina por um combustível de origem renovável.


Expansão

O berço desse novo ciclo da cana-de-açúcar é a região de Araçatuba, no oeste paulista. A região de Ribeirão Preto, também no interior de São Paulo, e a de Araçatuba se tornaram uma área de visitação obrigatória para os interessados na fabricação do álcool. Passaram por lá os fundadores do Google, Sergey Brin e Larry Page, o milionário norte-americano Dan Slane, entre outros. Somente o presidente da Usina Moema, Maurílio Biagi Filho, recebeu, no seu escritório de Ribeirão Preto, vários grupos de executivos, autoridades governamentais e empresários de mais de 20 lugares diferentes nos últimos 16 meses com um interesse em comum: o álcool. As comitivas e empresários recebidos pelo usineiro vieram dos países da América Central (Cuba, inclusive), Venezuela - com um grupo de usineiros e quatro diretores da estatal de petróleo (PDVSA) -, Colômbia, Peru, Equador, Bolívia, México, Estados Unidos, China, Coréia do Sul, Japão, Tailândia, Índia, Austrália, Alemanha, França, Suécia, Holanda e África do Sul.

"O mundo descobriu que o álcool é o melhor oxigenante da gasolina, as pessoas começaram a acreditar que o petróleo vai acabar e também estão percebendo que está ocorrendo um aquecimento global", diz o empresário Maurílio Biagi Filho, justificando o aumento da procura pelo combustível limpo.

A alta do petróleo está estimulando essa busca pelo biocombustível (que pode ser o álcool ou o biodiesel). O preço do barril de petróleo que era comercializado a US$ 27 no ano 2000, chegou a US$ 54 em 2005 e hoje está na casa dos US$ 70. "Os países mais civilizados querem acabar com a dependência do petróleo, porque é complicado depender de culturas completamente diferentes", disse o presidente do Grupo Petribú, Jorge Petribú, se referindo ao Oriente Médio, região historicamente problemática e onde estão as grandes reservas do "ouro negro". O Grupo Petribú tem unidades em Pernambuco e em São Paulo.

Outro fator que chama a atenção para o álcool feito da cana-de-açúcar no Brasil é o preço, o menor do mundo. Os custos de produção do álcool brasileiro são 50% menores do que o combustível de milho fabricado nos EUA. Vários fatores contribuem para isso, como a mão-de-obra mais barata, a alta produtividade da cana-de-açúcar no Brasil e o fato de que as usinas brasileiras usam, geralmente, a energia produzida no processo industrial para alimentar os seus equipamentos.

Os produtores de álcool acreditam num grande aumento do consumo do combustível. No mercado interno, o consumo de álcool cresce cerca de 6% ao ano, enquanto as exportações do produto aumentaram, em média, 9% ao ano, nos últimos três anos, segundo informações do Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool de Pernambuco (Sindaçúcar). O crescimento no mercado interno ocorre devido ao aumento do carro bicombustível, que já tem uma participação de 76,3% do mercado de veículos novos do País.

No mercado internacional, o que mais contribui para aumentar o consumo é a adição do álcool à gasolina. Entre os países que já adicionam o etanol à gasolina estão Japão, Índia, Suécia, Colômbia, Argélia, Argentina, Canadá e Estados Unidos. "No futuro, a tendência é esses países tornarem obrigatória a adição do álcool à gasolina", diz o presidente do Sindaçúcar, Renato Cunha. Os EUA vão substituir o aditivo chamado MTBE, adicionado à gasolina, pelo etanol. Só em 2005, os americanos consumiram 540 bilhões de litros de gasolina. Se o governo decidir adicionar 10% de álcool, isso demandará 54 bilhões de litros de etanol, quantia maior do que a atual produção do Brasil e dos Estados Unidos, que fabricarão, respectivamente, 16 bilhões de litros e 18 bilhões de litros nesta safra.

Os EUA também estabeleceram que o álcool deverá ter uma participação de 30% no mercado de combustíveis americano até 2030. Hoje, essa participação é de 2,5%. "O álcool está se tornando uma commodity e o mundo todo vai comprar álcool do Brasil", prevê Joel Soares, do Grupo Unialco.


Nota do Managing Editor: esta matéria foi primeiramente veiculada no Jornal do Commércio (Recife, Brasil), em 20 de agosto de 2006, dentro da rubrica JC Economia.


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