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As abelhas batem asas.


Milhões de colméias, outrora habitadas por bilhões de abelhas, há alguns meses estão prestes a desaparecer. A epidemia, de uma rapidez e de uma extensão quase-explosiva, poderia vir a abalar as bases de nossa civilização.

As reações a este assunto que, manifestamente, apaixona, bem como novas informações, nos levaram a ir além, para melhor compreender este inquietante enigma. Entrevistamos Bernard Vaissière, do Inra (Instituto Nacional de Pesquisa Agronômica, França), que ajustou um pouco os ponteiros, sem, contudo, minimizar a gravidade do problema.

Há apenas um ano, o fenômeno teve início em uma única criação na Flórida. Depois a epidemia se alastrou de colméia em colméia, até se estender ao conjunto dos estados americanos e do Canadá, antes de atingir a Europa, e chegar a Taiwan em abril de 2007.

O aspecto dessa catástrofe ecológica é desestruturador. Nenhum cadáver de abelha é encontrado, e as colméias abandonadas estão vazias. Nem mesmo os parasitas habituais, prontos a reocupá-las, são encontrados. Tudo se passa como se os insetos tivessem deixado seu habitat, em massa, para um destino desconhecido, sem jamais voltar ao local. Na França, onde os apicultores apenas se refazem dos estragos causados pelo tristemente célebre "Gaucho", um pesticida outrora espargido nos campos de milho e de girassol, os desaparecimentos ganharam novamente força.


A sirene do alarme

Não é apenas uma campainha do alarme, mas uma sirene que os cientistas acionam... ou tentem acionar. Porque 80% das plantas têm necessidade absoluta das abelhas para serem fecundadas, e, sem elas, não há mais produção de frutas ou de legumes possível. Nos Estados Unidos, onde o número de colméias "vivas" desabou de 2,4 milhões para 900.000, noventa plantas destinadas à alimentação humana são exclusivamente polinizadas pelas abelhas, o que representa um valor anual de 14 bilhões de dólares.





Apis mellifera (abelha do mel), uma das principais abelhas domésticas.

Créditos: John Severns



Os cientistas, que deram o nome de "colony collapse disorder" a essa síndrome, tentam encontrar uma explicação. Segundo o professor Joe Cummins, da Universidade de Ontário (Canadá), "Os índices sugerem que cogumelos parasitas utilizados para o combate biológico, e certos pesticidas do grupo dos neonicotinóides (classe de inseticidas que tiveram origem na nicotina), tenham interagido entre si e em sinergia para provocar a destruição das abelhas". Segundo ele, os insetos são também direta ou indiretamente vítimas da eficácia, sem cessar aumentada, das novas gerações de pesticidas, reputados como protetores da natureza, mas cujo efeito se revelaria particularmente pernicioso.

Ele cita, como exemplo, a prática mais e mais corrente que consiste em cobrir as sementes com inseticida de modo a evitar infestações de pragas. O produto é assim incorporado em toda a planta, desde as raízes até o pólen que as abelhas levam para a colméia e a envenenam, o que explica também a ausência de insetos "invasores" nas colméias abandonadas: eles não sobrevivem!


Fenômeno em cascata

O emprego desse tipo de pesticida à base de imidaclopride (um neonicotinóide poderoso), muito contestado na França e nos Estados Unidos, mas autorizado pela União Européia, ataca o sistema imunitário das abelhas, que se tornam vulneráveis aos parasitas. A prova parece ter sido estabelecida pela descoberta de uma meia dúzia de vírus, micróbios, mas também de cogumelos parasitas em algumas abelhas sobreviventes de colméias agonizantes. Esse produto é distribuído pela Bayer sob vários nomes: Gaucho, Merit, Admire, Confidore, Hachikusan, Premise, Advantage, entre outros.

A origem desses cogumelos parasitas não é um mistério, uma vez que eles mesmos são incorporados em certos pesticidas químicos para combater os acrídios, a pirale do milho e certas traças.

Trata-se aqui de um verdadeiro efeito em cascata, agentes infecciosos destinados a combater certos tipos de parasitas, aproveitando a brecha aberta no sistema imunitário das abelhas mudam o alvo, com, conseqüentemente destruição de culturas que esse produto estava destinado a proteger.

Mas, segundo Joe Cummins, esse efeito em cascata atuaria também entre esses cogumelos parasitas, propositalmente disseminados, e os biopesticidas "naturalmente" produzidos pelas plantas com pirale do milho, infectadas pelo fungo Nosema pyrausta. "As autoridades encarregadas da regulamentação trataram o declínio das abelhas com uma abordagem estreita, limitada, ignorando a prova segundo a qual os pesticidas agem em sinergia com outros elementos devastadores", acrescenta, concluindo.

A importância das abelhas no ecossistema é tal que, há meio século, Albert Einstein tinha estimado que se esse inseto viesse a desaparecer do globo, em quatro anos a espécie humana desapareceria. A sirene do alarme poderia se transformar em toque de sinos.

Futura Sciences, 09 septembre, 2007 (Tradução - MIA).


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