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As nanotecnologias : novo motor da revolução tecnológica.


Um estudo da Comissão Européia relacionado à atividade econômica das nanotecnologias revela que estas poderiam suplantar as biotecnologias e também ser geradoras de ganhos da mesma ordem que as tecnologias da informação e da comunicação (TIC). Os autores do documento reportam os estudos realizados sobre o progresso econômico das nanotecnologias, avaliando as conclusões e procurando localizar os setores que apresentam os mais fortes potenciais econômicos. Esboçam igualmente uma comparação entre a Europa e seus concorrentes no setor das nanotecnologias.

Esse estudo identifica os produtos otimizados em escala nanométrica como o setor chamado a dominar o mercado no futuro. "As estimativas dizem respeito ao conjunto do setor da nanoeletrônica se estabelecendo por volta de 226 bilhões de euros (1 euro = 2,6 reais) para 2015 (contra 40 bilhões de euros em 2006) e cobrem os semicondutores, os ultracondensadores, a nanoestocagem e os nanosensores. Esse relatório prevê igualmente um crescimento substancial para os nanomateriais, e principalmente as nanopartículas, nanorevestimentos e nanoestruturas. O mercado de administração otimizada de medicamentos (drug release) em escala nanométrica deverá igualmente crescer 50% ao ano, até 2012".

Todavia, como explicam os autores do documento, nenhuma dessas projeções leva em conta a adesão do público relativamente à nanotecnologia. "A experiência mostra que convém levar em consideração as expectativas e temores do cidadão, assim como sua percepção dos riscos e dos benefícios, sendo dado que eles têm um importante impacto sobre a aprovação dessas novas tecnologias para o mercado e podem decidir sobre seu sucesso ou seu fracasso comercial", pode-se ler no documento.

A aversão dos consumidores pelas nanotecnologias não deve, entretanto, ser superestimada, como mostra claramente uma pesquisa dirigida por Steven Currall, professor de administração do London University College (Reino Unido), publicada na revista Nature Nanotechnology. O estudo, que se apóia na resposta de 5.500 questionários, é o mais importante jamais realizado sobre a questão. Esse estudo mostra que os consumidores estão dispostos a recorrer às nanotecnologias, com compreensão dos casos onde elas estariam presentes como cosméticos e medicamentos, estando certos de que poderão retirar daí benefícios (praticidade, custo, saúde...). E "quanto mais os benefícios potenciais são importantes, mais os consumidores estão prontos a tolerar os riscos", constata Currall.

Entretanto, é absolutamente necessário que o Estado e os cientistas multipliquem as iniciativas e as instâncias de concertação e de informação para desarmar os temores e as hostilidades, quase sempre de natureza irracional, que podem suscitar as nanotecnologias.

Se o grande público compreende e aceita o desenvolvimento das nanotecnologias, estas são susceptíveis de criar numerosos empregos, sublinha esse estudo. "Diferentemente das biotecnologias, a maioria das empresas de "nanotech" operarão nos setores onde o tamanho do negócio conta menos que a P&D, a produção ou a comercialização. Uma vez atingido seu foco tecnológico, as pequenas empresas não estarão forçosamente condenadas a ser absorvidas por uma empresa maior", sublinha o relatório.

Em matéria de financiamento, a Europa é precedida por seus concorrentes, principalmente em razão dos ainda pequenos investimentos realizados pelo setor privado. O financiamento público sustenta, em compensação, a comparação relativamente ao que se fez em outros lugares. A Europa deve, por outro lado, observar as evoluções de países como a China, a Índia e a Rússia. O futuro da Europa dependerá, portanto, em grande medida, de sua excelência científica e de sua capacidade de reter a melhor mão-de-obra e os melhores especialistas em nanotecnologias, assim como de estabelecer infra-estruturas competitivas.

Entre as últimas aplicações, no âmbito do projeto CANVAD (Carbon Nanotubes for Microwave Vacuum Devices), os pesquisadores conseguiram desenvolver, em nível nanolitográfico, nanotubos alinhados, abrindo assim caminho a novas possibilidades na área das telecomunicações, tanto em terra como por satélite.

Nos Estados Unidos, John Rogers, professor de química de Illinois, desenvolveu uma técnica de impressão que lhe permite combinar uma grande variedade de nanoestruturas, tais como nanotubos de carbono. Pouco onerosa, essa tecnologia permite criar dispositivos ópticos e eletrônicos multicamadas e de rendimento elevado. Ela igualmente abre caminho para a nanoeletrônica flexível.

Em biologia, os nanovetores e nanopartículas (de silício, de ouro ou de óxido de ferro) abrem, da mesma forma, grandes esperanças, principalmente na luta contra o câncer. Além disso, em um relatório de prospectiva apaixonante, consagrado às aplicações médicas das nanotecnologias, os melhores experts dessa área objetivam, seriamente, para 2025, a possibilidade de injetar, no corpo humano, nanosistemas autônomos, que poderão ao mesmo tempo analisar e diagnosticar as anomalias em nível celular, e depois elaborar e "entregar" as nanoterapias necessárias à cura de doentes.

Essas previsões acabam de ser firmadas em duas apresentações comunicadas na conferência de 2007, "NSTI Nanotech", em Santa Clara (Califórnia, EUA). Pesquisadores apresentaram os resultados de suas pesquisas de ponta que mostram que as nanotecnologias podem favorecer a regeneração de células nervosas. O primeiro método, desenvolvido na Universidade de Miami (EUA), utiliza nanopartículas magnéticas (MNPs) a fim de criar uma tensão mecânica que estimula o crescimento e o alongamento dos axônios em nível dos neurônios. O segundo método proposto pela Universidade da Califórnia utiliza nanofibras alinhadas contendo um ou vários fatores de crescimento e servindo de matriz bioativa para o crescimento de células nervosas. Os pesquisadores californianos desenvolveram uma tecnologia que permite depositar nanofibras alinhadas na mesma direção e torná-las bioativas pela adição de fatores de crescimento. Através desse método, eles conseguiram fazer crescer 4 milímetros de neurônios de rato em 5 dias de cultura, ao longo dessa matriz!

Tais pesquisas, mesmo que em fase preliminar, confirmam as potencialidades extraordinárias da nanomedicina e abrem perspectivas terapêuticas completamente novas para o tratamento de lesões cerebrais e de doenças neurodegenerativas graves, face às quais, no momento, a medicina se acha desarmada.

Vê-se, na aproximação do cinqüentenário do discurso histórico de Feynman, em 1959, que as nanotecnologias já estão prestes a revolucionar o conjunto dos conhecimentos científicos e técnicos. Em menos de 20 anos, essas tecnologias do infinitamente pequeno terão transformado nosso mundo e nossa vida quotidiana a um ponto que, hoje, não conseguimos sequer imaginar. Esperamos que a França se dê, no decurso da próxima legislatura, os meios para permanecer nessa competição econômica, tecnológica, mas também política, que certamente determinará o ranking e o poder das nações no horizonte 2025.

RT Flash Lettre 436, juin 2007.


Nota do Managing Editor: este editorial, de autoria de René Trégouët, Senador Honorário da França, foi primeiramente publicado no Boletim Eletrônico RT Flash Lettre 436, de junho de 2007. Tradução e adaptação de Maria Isolete Alves (MIA) e Oswaldo Luiz Alves (OLA).


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