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A ciência precisa redefinir excelência.


A excelência está em toda parte na ciência. Ou esse parece ser o plano: tornar a excelência onipresente na pesquisa. Neste mês, a Universidade das Índias Ocidentais em Kingston, na Jamaica, tornou-se a última instituição acadêmica a incentivar seus cientistas a se destacarem, criando um Centro Regional de Excelência em Pesquisa no Caribe.

Ser bom já não é suficiente – a excelência, por definição, deve ir além disso.

E naqueles que alcançam isso – de pesquisadores e laboratórios individuais, até universidades, regiões e até países inteiros – os subsídios, estudantes e patrocínio político os seguem. O maior financiador de pesquisa biomédica da Grã-Bretanha, o Wellcome Trust, em Londres, administra um esquema de subvenção voltado para “Sustentar a Excelência”, e o Reino Unido financia as universidades de acordo com uma avaliação gigantesca de Estrutura de Excelência da Pesquisa (REF) realizada a cada poucos anos.

O que a excelência significa? Como é medido? Quando sabemos que alcançamos o padrão exigido? Estas são questões difíceis, mas, se a agenda de excelência deve ser levada a sério, elas precisam ser perguntadas – mesmo que não possam ser respondidas adequadamente.

Um artigo de Ciência e Políticas Públicas faz a mais recente tentativa de perguntar – e, de fato, respondê-las (F. Ferretti et al. Sci. Publ. Pol.). Os autores entrevistam uma dúzia de especialistas – desde técnicos em políticas até pesquisadores – sobre excelência e rapidamente alcançam dois pontos de consenso.

Primeiro, a ideia de excelência como uma medida da qualidade da pesquisa deixa muitas pessoas desconfortáveis. E em segundo lugar, essas pessoas – apesar do desconforto – não podem sugerir nada melhor, já que a ciência e os cientistas devem atender às demandas políticas de responsabilidade e avaliação.

Esses argumentos serão familiares para aqueles que seguem o debate, mas as conclusões do estudo ainda são impressionantes. Os autores sugerem que “a elaboração dos atuais indicadores para a política de pesquisa na União Europeia pode ter necessidade de uma revisão séria”. Isto é especialmente notável porque são os próprios autores que elaboraram os indicadores de políticas baseados, é claro, na excelência.

A maioria dos autores trabalha no Centro Comum de Pesquisa da Comissão Europeia (European Commission’s Joint Research Centre – JRC) em Ispra, Itália, que em 2013 levou a agenda da excelência para sua conclusão lógica e criou uma maneira de avaliar o desempenho científico das nações. Os formuladores de políticas na Europa agora usam essa métrica – o indicador de Excelência em Pesquisa em Ciência e Tecnologia – para classificar o desempenho dos estados membros e assim estabelecer prioridades e distribuir fundos.

Os críticos do conceito de excelência em pesquisa (e existem muitos) receberão muito bem a sugestão dos arquitetos da excelência do JRC no novo artigo de que o sistema está falho. Mas a comunidade científica deve lembrar o segundo ponto de consenso identificado no estudo: se não a excelência, então, o quê?

Muitos cientistas gostariam de ver as métricas de excelência – de fato, todas as métricas – desfeitas. Deixe o trabalho de dirigir a pesquisa, dizem eles, aos pesquisadores. Outros sugerem que o esforço de excelência deve ser reconcebido para refletir suas características mais importantes – como “solidez” e “capacidade” (S. Moore et al. Palgrave Commun.).

O caso para o abandono das métricas não é realista e não é desejável: aplicadas corretamente, as métricas podem, de fato, ser um guia útil para os formuladores de políticas e uma maneira para o público rastrear os bilhões de dólares dos impostos canalizados em pesquisas todos os anos (Isto é especialmente o caso em países suscetíveis ao coleguismo e ao nepotismo). E mudar o idioma usado é politicamente imprudente. A semântica importa – e a excelência, até certo ponto, é o que os políticos e os técnicos de políticas esperam dos cientistas.

Mas é verdade que a excelência pode ser definida de muitas maneiras. E é aqui que as reformas devem se concentrar. A (revista) Nature, por exemplo, pretende promover a saúde dos grupos de pesquisa este ano e, com isso, as responsabilidades de pesquisadores principais e outros líderes de grupo para promover a reprodutibilidade. Uma universidade que não oferece formação adequada às pessoas nessas posições realmente pode ser considerada excelente?

Enquanto isso, alguns financiadores estão começando a dar mais importância ao impacto social e relevância da pesquisa. O exercício REF da Grã-Bretanha, por exemplo, merece crédito por incluir tais impactos na avaliação. E nos últimos anos, o tratamento de questões como a equidade e a justiça social passou por um bem-vindo escrutínio.

Talvez o mais importante, tanto na definição como na aplicação da excelência, seja a transparência. As definições locais podem criar problemas. Jovens cientistas treinados em universidades que minimizam a necessidade de artigos de alto impacto, por exemplo, podem se encontrar em desvantagem quando se candidatam a empregos em lugares que lhes atribuam maior valor.

A excelência depende do contexto. Mas cientistas, financiadores e oficiais podem fazer mais para discutir e concordar sobre alguns princípios básicos adequados. Uma notícia da semana passada, por exemplo, revelou que mais de três quartos das organizações de pesquisa no Reino Unido não têm nenhuma política para evitar o mau uso de métricas nas decisões de contratação. Muitas dessas universidades se consideram excelentes. Outros não concordarão.

Nature (Tradução: Jornal da Ciência). Posted: Fev 24, 2018.


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