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ENTREVISTAS

Na era supramolecular e nanotecnológica o químico precisa reaprender a pensar quimicamente.



Henrique Eisi Toma é Professor Titular do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP). Graduado em Química, doutorou-se na USP em 1974 e foi pesquisador visitante no California Institute of Technology (CALTECH), em 1980. Em sua carreira, realizou pesquisas em cinética e mecanismos de reações inorgânicas, espectroscopia, eletroquímica e química bioinorgânica. Na última década vem atuando na área de química supramolecular e nanotecnologia. É pesquisador, nível 1A, do Conselho Nacional de Pesquisa Científica e Tecnológica (CNPq) e coordenador do Laboratório de Química Supramolecular e Nanotecnologia da USP. Foi membro do Comitê Assessor (CA) de Química do CNPq, da Coordenação de Química da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e, atualmente, é Chefe do Departamento de Química Fundamental, do Instituto de Química da USP (IQUSP). Publicou cerca de 220 artigos científicos em periódicos indexados e apresentou mais de 400 comunicações em congressos, acumulando 3.000 citações até o presente. Orientou 45 teses de mestrado e doutorado. Dentre as honrarias que recebeu, estão: Prêmio Heinrich-Rheinboldt (1987); Prêmio Destaque de Graduação - USP (1993); Prêmio Destaque de Ciências da Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa (1995); Third World Academy of Sciences - Chemistry Prize (1996); John Simon Guggenheim Memoriam Foundation (1999); Prêmio Fritz-Feigl (2001) e Comenda da Ordem Nacional do Mérito Científico (2002). Ocupa uma vaga na Academia Brasileira de Ciências, Academia de Ciências do Estado de São Paulo e na Third World Academy of Sciences, em Trieste.



LQES NEWS - Professor Toma, atualmente fala-se muito sobre a Nanotecnologia e muito pouco sobre a Química, embora nos pareça que o substrato dessa nova área do conhecimento esteja fortemente alicerçado nesta última. Como vê o senhor essa situação?

Toma - Não há dúvida de que a Química permeia por toda a Nanotecnologia, pois esta não pode existir sem átomos e moléculas. Contudo, existem aspectos que muitos Químicos ainda não percebem e, talvez por essa razão, não reconheçam a vinculação entre a Química e a Nanotecnologia. A Nanotecnologia implica no controle dimensional, na habilidade de se colocar átomos e moléculas em posições específicas, de montar estruturas organizadas e na capacidade de explorar o potencial existente nos materiais nanoestruturados. Na Química convencional, os processos são caóticos, pois a essência de uma reação é o seu caráter estatístico, colisional. Restringir esse tipo de liberdade nas moléculas implica em colocá-las em ambientes especiais, disponibilizando parcerias com outras moléculas ao seu redor e limitando interferências indesejáveis, como ocorre nos sistemas biológicos. Em outras palavras, para o Químico entrar na Nanotecnologia, ele terá que assimilar idéias e estratégias supramoleculares. Infelizmente, isso ainda não faz parte do menu curricular dos Químicos. Quando o Químico parte para a Nanotecnologia, ele não está abandonando a Química, mas sim procurando um novo patamar, em termos evolutivos. Esse rumo é importante para o próprio futuro da Química. Através desse esforço, o Químico poderá criar moléculas inteligentes, com capacidade de reconhecimento e coordenação, para atuar em processos com maior eficiência e de forma ambientalmente correta. Sistemas inteligentes poderão ser utilizados em portais lógicos, sensores e dispositivos dos mais diferentes tipos. Numa visão mais futurista, preconizada por Lehn, os sistemas químicos acabarão seguindo um processo evolutivo, darwiniano, até chegar às fronteiras que separam o mundo animado do inanimado. De fato, já estamos pressentindo isso. A fotossíntese já foi reproduzida artificialmente em lipossomas pelo casal Moore e Gust et al., e as máquinas moleculares criadas por Stoddart, Balzani e outros, já não são novidade. Enfim, na era supramolecular e nanotecnológica, extrapolando, com todo respeito, uma velha citação de Heinrich Rheinboldt, acho que o Químico precisa reaprender a pensar quimicamente.

LQES NEWS - Como o senhor analisa as fronteiras da Química com outras áreas do conhecimento no Brasil? Demos passos importantes ou ainda pouco sabemos fazer estas conexões?

Toma - Tem sido notório o impacto da Biologia Moderna, através das novas concepções da Biologia Molecular e dos avanços na Biotecnologia. Na Física, os nanomateriais, a modelagem dos nanosistemas, a computação quântica, a eletrônica molecular e os sistemas de baixa dimensionalidade têm dominado a temática dos encontros recentes. O impacto só não está sendo evidente por que os produtos ainda não estão no mercado, e levará algum tempo ainda para isso acontecer. Na Química, seguindo um raciocínio análogo, a Nanotecnologia Molecular deveria estar tendo um impacto semelhante. Realmente, não sei se isso está acontecendo no Brasil. Na formação das Redes Nacionais de Nanotecnologia, da qual participei, os Químicos foram minoria. Por pouco, deixou de ser formada a própria RENAMI, que carrega em seu nome a Nanotecnologia Molecular e as Interfaces. Talvez seja apenas uma questão de tempo e, oxalá, não seja uma característica histórica. Quanto tempo levou para que as idéias da mecânica quântica, geradas na década de 20, tivessem impacto nos currículos do Curso de Química em nosso país?

LQES NEWS - Em sua opinião, os cursos de química em nosso país estão preparando os estudantes para as novas mudanças de paradigma e para as necessidades das novas habilidades relacionadas com a teoria da informação?

Toma - Essa questão traz de volta a observação levantada anteriormente sobre os reflexos do crescente desenvolvimento científico, que parecem não atingir os Cursos de Química na velocidade desejada. A preocupação maior nos Cursos de Química tem sido a uniformização e o estabelecimento de currículos mínimos que, sem dúvida, são pontos importantes. Porém, em algum momento será importante tocar na questão do conteúdo e do tipo de profissional que estamos querendo formar. Sem isso, não haverá como preparar os jovens para as mudanças de paradigma que as novas tecnologias estão provocando.

LQES NEWS - O senhor vem trabalhando há muitos anos com Química Supramolecular, tendo uma participação internacional importante. Neste momento, quais seriam os maiores desafios desta área e quais as conquistas que denotam a maturidade da mesma?

Toma - A Química Supramolecular adquiriu novo status com o advento da Nanotecnologia Molecular. Por isso, quase todos os Químicos que ingressaram na área Supramolecular, na década passada, hoje estão envolvidos com problemas de nanotecnologia. É a velha história: se você consegue forjar as peças de uma máquina, por que não montá-la? Curiosamente, depois de haver trabalhado por quase uma década com montagem de estruturas supramoleculares usando porfirinas e complexos de rutênio, só recentemente pude perceber que esses sistemas são inteligentes e proporcionam excelentes portais lógicos do tipo AND, OR e NOT, para fazer computação molecular.Como todos os Químicos, temos que continuar aprendendo a linguagem das moléculas. Para mim, esse é ainda o maior desafio.

LQES NEWS - Todos somos testemunhas do grande crescimento da Química nos últimos 20 anos. Neste momento, esse crescimento representa cerca de 14% da produção científica brasileira indexada. Certamente o tamanho de tal atividade acaba por trazer à tona problemas éticos importantes, ligados ao julgamento por pares, conflitos de interesse, etc. Como o senhor vê estas questões?

Toma - Esse é um problema que considero muito complexo e difícil, porque toca na questão dos valores. Minha experiência recente no CNPq, FAPESP e na Chefia do Departamento de Química me proporcionou uma visão clara da atuação dos pesquisadores em nível local, regional e nacional, e dos recursos captados das Agências. E, realmente, às vezes não vejo coerência. No CNPq, mesmo com as distorções que a comunidade sempre tem apontado, a produção acadêmica é sempre avaliada e discutida pelo CA, e o quesito mérito normalmente acaba transparecendo na análise comparativa. Mesmo assim, a avaliação por pares tem sido fundamental, embora nem sempre de qualidade. Os consultores continuam sendo indicados pelos técnicos, com base no cadastro dos pesquisadores, principalmente com bolsas de produtividade. Embora reconheça que isso garante um mínimo de qualidade, devo lembrar que os técnicos do CNPq não têm a mesma vivência dos pesquisadores, nem o conhecimento dos seus pares, principalmente em termos dos interesses, associações e conflitos envolvidos. Esse trabalho deveria ser feito pelo CA. Da FAPESP, antigamente se ouvia que só existiam dois tipos de pesquisa: a de boa qualidade (que deveria ser financiada) e a de má qualidade. Hoje, a competitividade é maior, e não se fala mais nisso. A análise dos projetos segue o fluxo contínuo, o que é bom em termos da agilidade, porém, às vezes injusta, por não ser comparativa, fazendo com que a decisão passe a depender quase que essencialmente do parecer da assessoria. Na falta de critérios comparativos, um projeto de porte, com mérito, pode ter seu orçamento sacrificado ou ser até denegado, enquanto outro, de menor impacto, venha a ser totalmente aprovado, com montante de recursos muitas vezes maior! Os julgamentos não se cruzam, como se percorressem caminhos independentes!Não pretendo criticar a análise por pares, pois acredito que ainda é o melhor critério existente. Critico, sim, a qualidade dos pares e a necessidade de se aperfeiçoar o elenco de consultores. Um consultor, que só valoriza o sentido utilitário da ciência, pode colocar um projeto acadêmico inovador na lata do lixo, e vice-versa. Na óptica do consultor, quando sua intenção é desmerecer o projeto, muitas vezes o desempenho acadêmico, produção de artigos de qualidade, formação de recursos humanos, etc., passam a não valer nada. Coisas do tipo: o grupo já está consolidado e não precisa de apoio, já foram ditas por consultores.Por outro lado, as incongruências no julgamento têm reflexos perversos na comunidade, despertando suspeitas infundadas e colocando freqüentemente pesquisador contra pesquisador. Nas publicações científicas, o cenário não é muito diferente. Na minha experiência, tem sido muito mais difícil publicar um artigo inovador, do tipo que nos deixa motivado a fazer pesquisa, do que um artigo convencional, em revista de impacto. Pelo fato do tema ser inovador ou de impacto, existe grande probabilidade de que o artigo caia nas mãos do concorrente internacional, que nem sempre tem muita simpatia ou consideração pelos cientistas do terceiro mundo, mas, com certeza, está sempre convicto de que poderia ter realizado o mesmo trabalho com maior qualidade. Com isso, no lugar de elogios, recebemos críticas. Estrategicamente, muitas vezes é preferível camuflar o artigo, enviando para outra revista e evitar esse tipo de confronto. Porém, infelizmente, isso acaba provocando uma inversão de valores. Na questão do mérito, há momentos em que lembramos do nosso empresário, que ainda prefere importar tecnologia a desenvolvê-la no país. Isso porque, lamentavelmente, um trabalho produzido com grande esforço, nas nossas condições, e que consiga vencer a concorrência internacional, terá menor reconhecimento ou impacto que outro, produzido, por exemplo, por um bolsista no exterior durante seu estágio de aperfeiçoamento. É lógico que contribuem para isso, a revista e o prestígio dos autores envolvidos. Como isso lembra o empresário? Ironicamente, seria muito mais fácil fazer toda a nossa produção no exterior, proporcionando mão-de-obra barata, ou então importando cientistas, do que gerar conhecimento próprio no país. Porém, as conseqüências para a nossa cultura e desenvolvimento, seriam, no mínimo, terríveis. Apresento aqui minhas desculpas pelo tom preocupante dessas observações. Por estar terminando de escrever um livro sobre nanotecnologia, onde dedico um capítulo inteiro à questão da ética, eu tenho refletido muito sobre os valores na ciência. Concordo inteiramente com o grupo de cientistas, incluindo 17 premiados com o Nobel, que, no ano passado, assinou um manifesto resgatando a essência da filosofia humanista. Considerações dessa natureza deveriam permear a ciência e a sociedade.




LQES NEWS - O grupo de pesquisa que o senhor coordena - aliás, um dos mais importantes grupos de pesquisa em química do país -, já depositou várias patentes. Em que status estas patentes se encontram? Já houve algum licenciamento? Quais as principais dificuldades que o senhor vem encontrando no processo de interação com o setor produtivo, seja na questão específica das patentes, seja na realização de pesquisas colaborativas?

Toma - No ano passado nosso laboratório depositou três pedidos de patentes. Um deles, que é voltado para detectores com filmes de porfirinas supramoleculares para análise de aditivos em alimentos e bebidas, já despertou interesse de uma empresa produtora de açúcar. Contudo, na questão de patentes e transferência de tecnologia, ainda existe um longo caminho a ser percorrido. Para um projeto se transformar em produto, não basta desenvolver a metodologia. O empresário quer ver tudo funcionando. Assim, temos que investir em equipamentos eletrônicos portáteis, sistemas de fluxo, etc., ou então procurar parcerias. É o que estamos tentando fazer.

LQES NEWS - O senhor é um dos Pesquisadores Sênior do Instituto do Milênio de Materiais Complexos (IMMC) tendo, inclusive, apresentado recentemente um Colóquio, disponibilizado pela Internet, sobre os diferentes aspectos ligados ao comportamento dos elétrons. Na sua avaliação, a experiência do Instituto do Milênio tem sido interessante e conseqüente para as suas atividades?

Toma - Não é segredo o fato de que a experiência que estamos tendo através do Instituto do Milênio de Materiais Complexos tem sido responsável por uma mudança de patamar em nossa pesquisa. Em primeiro lugar, destaco o impacto da aquisição do sistema de microscopia de varredura de sonda, que era inexistente no Instituto de Química. Esse equipamento havia sido denegado pela FAPESP, em nosso projeto temático, e, em função disso, toda a nossa linha de caracterização de filmes e dispositivos moleculares estava sendo comprometida. Com a instalação do equipamento em meados do ano passado, os resultados já aparecem em mais de dez publicações recentes do grupo, e em dois pedidos de patente. Foi possível desenvolver células fotoeletroquímicas com filmes supramoleculares, sensores com filmes eletropolimerizados, e, atualmente, estão sendo realizados trabalhos com portais lógicos, baseados em filmes moleculares. Em segundo lugar, tem ocorrido uma interação bastante gratificante com os participantes do Instituto. Através dos trabalhos em colaboração com o Professor Eberlin (da Unicamp), ficamos realmente assombrados ao ver as supermoléculas, que considerávamos tão complicadas, comportando-se como estruturas bem definidas, mostrando a construção molecular de forma indiscutível, através da espectrometria de massa. Esses trabalhos começam agora a ser publicados. O curso ministrado pelo Instituto do Milênio (em Campinas), teve enorme impacto sobre os alunos, despertando o interesse pela área de microscopia eletrônica e estimulando trabalhos de colaboração. Finalmente, outras colaborações estão em andamento. Os Colóquios têm sido acompanhados à distância pelos alunos, com impacto bastante positivo na sua formação.

LQES NEWS - Finalizamos com uma pergunta que vimos fazendo a todos os nossos entrevistados, e que está relacionada às novas gerações de químicos - Que conselhos o senhor daria a um estudante que estivesse intencionado a realizar uma pós-graduação em química, sobretudo nas áreas em que o senhor atua, ou seja, química supramolecular e/ou de materiais.

Toma - Acho que o conselho seria "pensar grande", isto é, não impor limites à sua vontade de aprender, pesquisar e trabalhar, acreditando que o conhecimento é a verdadeira força motora da humanidade.

LQES NEWS - Professor Toma, muito obrigado e grande sucesso em seu trabalho.

Nota do Managing Editor: Entrevista feita pelo Professor Oswaldo Luiz Alves, Coordenador Científico do LQES Website e do LQES NEWS. Os Colóquios do Instituto do Milênio de Materiais Complexos, versão 2003, podem ser acessados em: http://www.cameraweb.unicamp.br, "Espectroscopia Eletrônica: Tendências Modernas e Exploração dos Estados Excitados" foi o Colóquio feito pelo entrevistado.

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