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ENTREVISTAS

A arte de tecer ciências
Entrevista com Evando Mirra de Paula e Silva, Presidente do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) à jornalista Lana Cristina e veiculada no site da Agência Brasil, a partir de 01.02.2002.


Responsável por definir as estratégias de como e onde investir R$ 1 bilhão que entraram no orçamento do desenvolvimento científico e tecnológico de 2002, com os fundos setoriais, Evando Mirra de Paula e Silva nunca esteve tão atrelado à questão como agora. Recém confirmado presidente do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), a entidade de caráter privado que o governou criou para fazer estudos prospectivos dos caminhos que a ciência deve percorrer, Evando Mirra já foi presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), onde acumulou a experiência de lidar com outro lado do balcão. Ele começou sua carreira científica, como todo pesquisador, se especializando na sua área de formação, Engenharia Mecânica e Elétrica. Para isso, concluiu mestrado em Metalurgia e Ciência e Engenharia de Materiais na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e depois chegou a doutor pela Universidade de Paris. Seus cinco anos de convivência com a sociedade francesa, lhe serviram para mais. Ele viu que ali as crianças realmente se formavam durante todo período de aprendizado, iam ao cinema, ao teatro, ao museu, aos mais diferentes locais públicos, além de vivenciar a sala de aula. "Elas aprendem desde a infância a conviver com o outro, a lidar com as diferenças", observa o mineiro de Andrelândia, que está com 58 anos. Nessa primeira entrevista como presidente do CGEE, à repórter Lana Cristina, Mirra fala da convivência mútua como trunfo para tirar o país da visão de atraso científico e tecnológico tão arraigada pelo mundo afora, e mesmo aqui, dentro de casa.


C&T - Ainda há no Brasil dificuldade de conciliar pesquisa, mercado e produto para
rentabilizar a ciência, para que ela mostre a que veio, não é verdade?


Mirra - Todo país tem uma história e a história brasileira nesse aspecto é interessante. Realmente, ainda estamos num momento em que há ainda um certo desequilíbrio nesses ingredientes mencionados. Em contrapartida, o crescimento do empreendimento científico brasileiro é extradordinário. Isso já começa a ser percebido. Tem aumentado a produção, a qualidade, a presença de cientistas brasileiros na direção de órgãos internacionais, em sociedades científicas e na editoria de revistas. O país está entrando em cena corretamente, no aspecto científico.

C&T - E na questão tecnológica?

Mirra - Na questão tecnológica, o país tem uma história interessante, que fez com que o Brasil tenha tido nos últimos 30 anos, sistematicamente, uma das dez maiores produções industriais do mundo. O país é um dos dez maiores geradores de riqueza. Os caminhos, no entanto, do desenvolvimento científico e do tecnológico foram caminhos meio paralelos. O crescimento científico se fez com pouco diálogo com a transformação industrial. E a indústria recorreu pouco à inteligência científica. De modo que uma das agendas importante que temos hoje é acelerar essa interação.

C&T - É preciso construir uma ponte nesse terreno?

Mirra - Elas já existem, mas é necessário que façamos mais.

C&T - Dentro do papel do CGEE, o que o ele pode fazer na prática para preencher essas lacunas?

Mirra - Há vários elementos, mas um dos instrumentos interessantes que temos hoje e no qual o centro está envolvido é a gestão dos fundos setoriais. Cada fundo setorial, que é objeto de consultoria técnica, estudos e apoio no centro, é administrado por um grupo. É o comitê gestor, onde está presente o governo, o setor produtivo e a academia, ou seja, atores da pesquisa científica. Cada um analisa sua vertente, o do petróleo, o dos recursos hídricos, o da energia, o da tecnologia mineral. E há dois fundos onde essa questão é vista em toda sua abrangência. Um é o fundo de infra-estrutura para pesquisa e outro é o fundo de inovação, o verde-amarelo. Ou seja, há todo um suporte institucional, para viabilizar essa interlocução.

C&T - Não está faltando mais engajamento do empresariado brasileiro? Você não acha que o empresário precisa desembolsar mais para financiar a pesquisa e o desenvolvimento tecnológico? Os fundos seriam um passo para essa colaboração?

Mirra - Claro que os fundos sozinhos seriam muito frágeis. Mas eles existem dentro de um quadro mais amplo. Por exemplo, foi reformulado completamente o sistema de incentivos fiscais, que são facilidades, um apoio concedido à empresa que tenha um programa de desenvolvimento industrial, agrário ou outro setor em que ela trabalhe. Se a empresa elabora esse programa e o desenvolve, ela passa a contar com certas vantagens. Há outro esforço enorme da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), que é o de colocar capital de risco. Uma das razões pelas quais se investiu pouco em pesquisa na empresa nacional foi a facilidade de comprar lá fora, pronto o produto. Isso já não é mais bem assim. De uns anos para cá, certamente depois da década de 90, surgiu a figura da tecnologia chamada matriz. Então, a empresa vende o produto, agora, mas também quer explorar o produto. Ou algo mais sofisticado ainda. A empresa vende a receita, mas para exploração local. Num momento em que sua capacidade de exportação, de estar em outros mercados, é vital, faz parte de sua sobrevivência, essa limitação de mercado é fatal. Isso é uma dificuldade para a empresa, mas uma excelente oportunidade para o país.

C&T - Há de fato um crescimento nessa área?

Mirra - O empresariado brasileiro está aprendendo que pode desenhar produtos, a partir da demanda local e universalizá-los. Essas mudanças não se fazem nem de uma vez, nem por todo lugar. Elas começam aqui e ali, começaram certamente na área de informática, desenvolvimento de software, na biotecnologia. Há experiências interessantes no agronegócio. A questão agora é tirar as lições desses casos de sucesso e recriar as condições que o facilitam e o promovem, de tal forma que se possa expandir esse empreendimento e dar visibilidade para o fato de que é rentável, é interessante.

C&T - Por que não há um fundo na área ambiental, sendo o país tão grande e detentor de uma das maiores diversidades biológicas do mundo?

Mirra - É de fato uma questão crucial, mas também há aí outro detalhe que é a forma de ler, e ver como as coisas estão se desenvolvendo. O setor agropecuário, por exemplo. Quando a gente analisa a carteira de projetos de uma agência de fomento como o CNPq, percebe-se que 40% do investimento na área agropecuária é ambiental. A exploração do leite é um exemplo. No Brasil, a produção de leite é feita em grande parte por empresas familiares ou em pequenos grupos. E um dos problemas dramáticos da exploração do leite, é que o produtor separa o soro e o joga fora. Isso é um veneno para o solo. Ao mesmo tempo, é uma substância altamente protéico e poderia ser utilizado, assim, para produção de ração ou ser transformado em outros produtos, e ser rentável. Há uma gama de pesquisas no setor agropecuário voltadas para a transformação de uma exploração que, antes era predatória e nociva, em uma exploração ambientalmente correta e comercialmente mais rentável. Então, como o viés ambiental permeia todos os aspectos, no fundo ela é contemplada por todos os fundos.

C&T - O Brasil ainda vive o ranço estatal, é algo cultural, onde todos creditam ao governo a solução de todos os problemas? Não seria a hora de mudar esse quadro, essa visão paternalista?

Mirra - Há várias vertentes nessa questão que são decisivas. A grande questão que se coloca é, talvez, a cultural. Ainda se vê o Estado como se fôssemos dependentes dele, se vê nele uma onipotência. Ou seja, é uma questão de postura e de atitude das pessoas. A inovação, hoje, no Brasil, é também essencialmente cultural. O país já tem hoje infra-estrutura de pesquisa, recursos humanos altamente qualificado, produção industrial e uma gama de problemas, que o torna capaz e competente de realizar, aqui, inovação de fôlego e de impacto internacional. A prova maior disso é que em todos os casos onde se tentou fazer essa inovação, ela tem uma taxa de sucesso altamente surpreendente. Digo surpreendente porque quando se inicia um empreendimento novo, no qual não se tem experiência, é óbvio que uma certa taxa de erro e de equívoco é inevitável, é natural. Mas, há uma contrapartida de sucesso que é desconcertante. O Brasil encontrou um problema dramático para explorar petróleo, porque é uma matéria explorada em águas muito profundas. Na Inglaterra e em outros países exploradores de petróleo, encontra-se a 100 ou 200 metros. Mas aqui, só a dois ou três quilômetros, onde a pressão da água é brutal, não há condições de visibilidade, a transmissão de energia elétrica se faz de uma maneira complicada. É uma tecnologia baseada em problemas de natureza muito distinta dos que foram encontrados por países desenvolvidos. O Brasil se debruçou sobre isso e hoje é líder mundial nessa tecnologia.

C&T - Os pesquisadores brasileiros se sentem desestimulados depois que terminam suas especializações porque, em geral, só o Estado (com as universidades e institutos de pesquisa) vão abrigá-los. Não há uma disputa por mão de obra qualificada no mercado, pela iniciativa privada. Isso não poderia inviabilizar a formação de recursos humanos brasileiros ou pelo menos afastá-los daqui?

Mirra - A questão da inovação é essencialmente uma aventura humana. São as pessoas que fazem essa transformação e é fundamental que se agregue ao setor de produção um número maior de pessoas com treinamento e qualificação específica. Isso já começa a ocorrer no país e de maneiras diversas. Em alguns estados, há empresas que investem nos seus profissionais, pagando um curso de pós-graduação. Então, há empresas que qualificam as pessoas que já conhecem a cultura da empresa. Em alguns casos, estão sendo enviados para qualificação profissionais recém-formados. Também aí há uma taxa de sucesso muito boa, como no setor metalúrgico, siderúrgico, onde esse efeito ficou mais evidente. A inovação tecnológica e a transformação do setor estão fortemente associadas ao aporte dessa mão de obra treinada e qualificada. E a lição dos países desenvolvidos é também interessante, porque as pessoas que são treinadas lá são distribuídas nas empresas não apenas na área de pesquisa, mas no marketing, em serviços de atendimento ao cliente e dentro da própria produção. Assim, o treinamento em pesquisa é para fazer face aos problemas novos, ter acesso à informação e organizá-la, testar situações novas, formular hipóteses e verificar como o mundo real responde a elas. Esse percurso é muito valorizado nos países desenvolvidos. Para o Brasil, é preciso que se aprenda a multiplicar os caminhos de inserção dos nossos jovens mestres e doutores, e de qualificação de todo o corpo envolvido nas empresas. A questão vai até um pouco além. Nós estamos numa sociedade do conhecimento, e em um universo onde a formação do aluno em uma universidade, por exemplo, pode ser revista várias vezes, ao longo do curso até. E o ciclo de vida útil das tecnologias, em algumas áreas, tem uma velocidade vertiginosa. O que significa que não é necessariamente o que se aprendeu como conteúdo, que vai lhe ser útil. Útil será o fato de que o aluno aprendeu uma forma de aprender, a conviver com o desconhecido, com o novo e a gerar a partir disso um outro conhecimento. E saber viver com as dificuldades é um trunfo nesse clima mutante de transformação. Não resta a menor dúvida que recursos humanos altamente qualificados são uma questão chave para a empresa, e para a transformação do país e do sistema de produção. Nesse sentido, muitas iniciativas em curso têm relação com essa questão sob os mais variados aspectos.

C&T - Por exemplo?

Mirra - Fizemos no ano passado um seminário sobre recursos humanos, que foi chamado de Talentos para a Sociedade da Informação. Estamos trabalhando sobre as demandas de perfis, de posturas, de treinamento, para vários segmentos. E os fundos setoriais englobam, além do apoio à realização da pesquisa, a formação de recursos humanos. É um empreendimento, um mutirão que pretende mobilizar todo o país. Se ganharmos essa parada, nós entramos no jogo definitivamente.

C&T - Até que ponto a ciência pode tirar o Brasil da ótica de país atrasado?

Mirra - Todo problema social e econômico é mais complexo e exige um esforço para resolver. Mas ciência e tecnologia é um mecanismo poderoso de inclusão social, de colocação em cena de elementos e ingredientes que ajudam nessa inclusão. Alguns exemplos nos permitem visualizar isso melhor. Em Minas Gerais, um empreendimento familiar, caseiro, tornou-se pauta de exportação do estado, que é o pão de queijo. Foi uma revolução, que teve origem na pesquisa e na associação universidade-empresa familiar. O problema básico era o seguinte: quando surgiu a indústria de congelados, tentou-se congelar a massa de pão de queijo. Mas ao ser aquecido, o produto tinha perdido o sabor. Por que? Porque a massa do pão de queijo tem um fermento natural e que não resistia ao frio. Então grupos de tecnologia de alimentos da Universidade Federal de Minas Gerais e grupo de tecnologia de Viçosa, com aporte do Centro Tecnológico de Minas, trabalharam na solução desse problema. Que era então como preservar as características da massa, principalmente quanto ao sabor, mas dando condições do fermento sobreviver a baixas temperaturas. Resolvido isso, a iniciativa se desdobrou no treinamento intensivo de oito mil pessoas em higiene, manuseio de alimentos. Enfim, um empreendimento que gerou renda e emprego, além de pauta de exportação. E ainda veio mais. Depois, faltou queijo, porque a indústria do queijo não estava preparada para atender a demanda com o padrão de qualidade que esse processo exige. E ela se adequou para isso. É um mecanismo de inclusão social porque gera renda para muitas famílias.

C&T - Mas do ponto de vista tecnológico, e do científico?

Mirra - Veja, outro problema que demandou o uso da ciência foi o da soberania sobre o mar. Havia um briga histórica sobre se seriam 12 milhas náuticas ou 200 milhas como o Brasil queria. E nos anos 90, com a atuação da ONU, foi assinado um protocolo pelo qual se assegurou a soberania sobre as 200 milhas e seu uso, mas apenas se o país conhecesse científica e tecnologicamente esse espaço. Isso gerou o Revizee, que é o programa de estudo da Zona Econômica e Exclusiva. Conhecer significa então mapear o perfil da costa, da plataforma submarina, das diferenças de temperatura, como são as correntes marinhas, quais são as espécies de peixes que vivem na nossa costa, como se reproduzem. Enfim, mapear todo esse universo vivo e a base física na qual ele existe. Nesse caso, deter esse conhecimento afeta diretamente a comunidade que vive da pesca, são 800 mil pessoas que têm sua atividade econômica baseada na pesca, com uma produção de 700 mil toneladas por ano. É uma produção baixa para os padrões internacionais. Ora, o que o estudo Revizee permite é mapear as espécies e como explorá-las, porque isso depende do sistema de reprodução dos peixes. Há todo uma gama de hábitos de pesca que está sendo redesenhada de forma que as pessoas pesquem mais, em melhores condições, com mais segurança. É um mecanismo de inclusão social também esse.

C&T - Alguns fóruns da Conferência de Ciência, Tecnologia e Inovação reclamaram uma atenção maior para as ciências sociais justamente por achar que é uma área não contemplada pelo governo e, ao mesmo tempo essencial, para acabar com um problema crucial de ser resolvido que é a pobreza. Como se pode incluir, então, as ciências sociais na pauta da ciência e tecnologia para gerar melhor distribuição de renda, mais conforto e segurança para as pessoas?

Mirra - As ciências sociais estão em pauta desde o início. De novo, acho que há um problema de leitura. Vou dar um exemplo. Tive o prazer de fazer a conferência de abertura do encontro nacional da Anpat, que é o sistema nacional de pesquisa em administração. A uma certa altura, uma pessoa se exaltou e perguntou quando o governo ia criar um fundo para a administração. Coincidiu que, pouco antes da conferência, eu acabava de vir do estande da Revista de Administração Contemporâneo. E havia me chamado a atenção o fato de que, os trabalhos publicados, dentro das linhas de pesquisa em curso, todos cabiam nos fundos setoriais. Uma das linhas era administração para a inovação e transformação, que cabe praticamente em todos os fundos.

C&T - Por que há essa distorção?

Mirra - Existe uma dificuldade, porque estamos num processo de transformação onde todos estão ainda apreendendo seus papéis, de leitura do que está sendo feito. É como se eu não nomeasse um fundo, com o nome da pesquisa que prevê a interação do cobre com o alumínio, por exemplo, e com isso eu não estivesse incluindo esse item nos fundos. Não é assim. As pessoas lidam com problemas, com linhas de pesquisa e essa grade é complexa. Portanto, as ciências sociais estão acolhidas por várias iniciativas. Mas isso não elide o problema concreto. De fato, existe uma questão global das ciências sociais e que merece uma atenção especial, um investimento adicional. E existe também a necessidade de ampliar, afinar e exercitar mais essas práticas de uso e desenvolvimento das estratégias de ciência e tecnologia para se lidar com problemas como violência, fome, emprego, habitação. Essas coisas não se desenrolam por milagre, nem da noite para o dia.

C&T - O que tem sido feito?

Mirra- É notável como os esforços desenvolvidos agora produzem bons resultados. O ministério da Ciência e Tecnologia apóia no Ceará, por exemplo, um programa de criação de 40 centros vocacionais e tecnológicos. São uma vasta rede voltada para o suporte de informática e a qualificação de recursos humanos. Visitar esses lugares é passar por uma experiência emocionante. Vi, por exemplo, em Aracoiaba, no interior do estado, uma rede de computadores onde padeiros estavam aprendendo como fazer controle de estoque por computador. Vi ainda várias costureiras, na Internet, fazendo um curso de estilismo e modelagem do vestuário, aprendendo novas formas de corte e desenhos, novas cores. Outro caso que posso mencionar é o da região do Xingó. Lá, há outro empreendimento que nasceu na cidade que se tornaria fantasma após o término da obra da hidrelétrica do Xingó, que é a última barragem do São Francisco. Ali, fez-se um trabalho envolvendo CNPq, a Chesf, a companhia que gerencia a hidrelétrica, e as universidade locais, além do Banco do Nordeste. Desenvolveu-se vários trabalhos de pesquisa e extensão numa região altamente pobre. São 600 mil pessoas, em 29 municípios, vivendo sob absoluta pobreza. Uma incoerência para um lugar belíssimo, onde se formam vários canyons, onde o rio já foi filtrado na sua extensão, as águas são transparentes, onde a memória histórica é fabulosa, foi ali que morreu Lampião e Maria Bonita, onde há sítios arqueológicos. Então, uma das linhas escolhidas foi a piscicultura, porque as pessoas precisariam aprender a pescar numa região onde algumas espécies tinham acabado devido às barragens. Isso gerou atividade, ocupação e renda. O mesmo ocorreu com a caprinocultura, outra linha de pesquisa, e também com a irrigação. É uma estratégia que reuniu a inteligência, para fazer com que se desenvolvessem os meios de redução da pobreza. É uma aventura coletiva que envolve o cooperativismo, e é preciso que haja paixão por isso. Não se resolvem problemas assim por meio de decreto de governo, gestos burocráticos.

C&T - Você estaria assim chamando outros atores para participar do processo como organizações governamentais, governos municipais, a própria comunidade?

Mirra - Só se tem sucesso se for assim. Se os governos municipais ou as Ongs não se interessarem pelo problema, o fluxo é muito lento, impossível. Tem que ser uma aventura compartilhada e com estratégias diferentes, capacidades diferentes de mobilizar as pessoas, de trazer novos instrumentos. Os meios estão aí disponíveis.

C&T - A física realmente está perdendo o espaço para a biologia, como toda essa história de genoma, clonagem e biotecnologia? Ou é tudo uma questão de modismo?

Mirra - O empreendimento brasileiro de ciência e tecnologia tem uma característica notável que é o equilíbrio. Há, hoje, cerca de 12 mil grupos de pesquisa, distribuídos, mais ou menos 20%, em cada uma das grandes áreas do país, com uma participação um pouco maior das ciências da vida. Esse é o padrão internacional. E a comunidade científica tem 200 mil pessoas, num universo ainda pequeno para o tamanho do Brasil, mas bem distribuída nos vários segmentos da ciência. Agora, a evolução de cada área segue padrões que são ditados por vários fatores. Tem o charme do momento, do apelo, a dimensão no imaginário do que seria o ganho financeiro, ou seja, questões mercadológicas. É interessante perceber que, na história científica tem sido assim. Certos empreendimentos científicos capturam mais a imaginação por alguma razão, ou porque são mais imediáticos, ou porque dão marketing. Já se esqueceu por exemplo, o peso que teve no Brasil a questão da energia nuclear, como mobilizador. Ao final da década de 40 para a década de 50, a energia nuclear, no plano internacional, ao mesmo tempo em que gerava o desassossego devido à explosão da bomba atômica, era também, nitidamente, um agregador. Foi ela quem gerou a física do estado sólido, a chamada física da matéria condensada, gerou um incremento imenso na química, na engenharia, na parte de novos materiais. Porque, afinal mostrou capacidade de transformação da natureza impensável antes, e isso capturou os corações de uma certa maneira. O grande sucesso da física que conquistou muitos também foi, sem dúvida, a evolução da mecânica quântica, nos anos 20 e anos 30 porque tinha ingredientes inesperados. Uma ciência que já se imaginava feita, pronta, de repente foi reinventada por um "bando de moleques", o mais velho tinha 27 anos de idade. Eles produziram todo o arcabouço conceitual e teórico que, ainda hoje, é a base fundamental da física. Claro que uma aventura desse tamanho tem rasos românticos, que mobilizaria as pessoas.

C&T - Agora então chegou a vez da biologia?

Mirra - A questão da biologia, hoje, tem um papel equivalente. Para as pessoas do ramo, há até um comentário engraçado. Diz-se que o que a biologia fez, na verdade, foi incorporar as grades de leitura da física. Os físicos brincam que a biologia molecular é um capítulo da física. Uma brincadeira como qualquer outra, os rótulos se criam e é normal. Mas o fato é que essa transformação e essa emergência da biologia, cuja história começa nos anos 50, com a descoberta do DNA, que foi entender uma estrutura como a física já o fizera antes, foi entender como funcionam as forças que ligam átomos e moléculas, num grau de complexidade maior do aquele que a física já tinha estudado. Na verdade, a revolução da biologia molecular e da biotecnologia sela um pacto de coexistência, convivência mútua, muito maior do que uma disputa como é apresentado na mídia.

C&T - É conjunção e não disputa?

Mirra - Não é uma disputa. São ressonâncias, porque o desenvolvimento se faz com ressonâncias. Alguém está no palco em determinado momento e recebe os aplausos e os holofotes, mas todo mundo está na mesma aventura. É um desenvolvimento que se faz coletivamente, articulado. É curioso, por exemplo, que na biologia molecular o estrangulamento absoluto, hoje, esteja na informática. O seqüenciamento genômico controla-se bem, mas como lidar com o armazenamento de informação absolutamente volumosa, como prever combinações, e trabalhar isso com inteligência? Não se trata só de capacidade de cálculo, mas de inteligência. Então, na evolução do mundo real, há muito mais conjunção e ressonância.

C&T - Há um "chororô" antigo e, a mesmo tempo atual, principalmente quando se trata do Norte e Nordeste, de pesquisadores por verbas públicas, para o financiamento de suas pesquisas. Algum dia vão acabar as queixas por falta de dinheiro para a ciência?

Mirra - Espero que nunca acabe. Espero que a gente sempre queira fazer muito mais do que tem meios para fazer naquela hora. É preciso que os nossos sonhos sejam muito maiores. Mas, de fato, a questão de financiamento é uma questão que não pode ser subestimada. Tem aspectos delicados porque precisa ser construída num patamar razoável e crescente, com grau de constância, sem flutuação, porque a inconstância aí é fatal, ela pode matar o desenvolvimento da pesquisa. Então, é preciso construir as condições de sustentabilidade. É e preciso que essa construção seja coletiva porque é assim em qualquer lugar do mundo. O sistema de fomento que existe hoje em todo o mundo nasceu nos Estados Unidos e não foi gratuito. Foi preciso enorme trabalho de convencimento junto à sociedade, ao congresso, de que investir em conhecimento era algo essencial. Que isso torna a vida mais interessante, que reduz a violência, que aproxima as pessoas, estabelece formas mais delicadas de convivência e mais interessantes do que o conflito. Então, a produção de conhecimento tem um eixo civilizador, algo que é sociabilizante, que agrega e coloca as pessoas juntas. E, além disso, um trabalho de convencimento de que isso é rentável também do ponto de vista da sua inserção na sociedade, da sua relação com o mundo. O fomento sempre foi uma questão cultural e política. A National Science Foundation, agência de fomento irmã do CNPq, teve uma vida quase vegetativa entre o ano que foi criada, que foi 1950, com orçamento modesto, até 4 de outubro de 1957, data em que foi lançado o Sputnik, pela Rússia. Isso causou um trauma na sociedade americana. Da noite para o dia, ciência e tecnologia nos Estados Unidos adquiriram um significado político que não tinham. O orçamento da NSF dobrou no ano posterior e continuou dobrando nos anos que vieram.

C&T - Como fazer isso no Brasil?

Mirra - Isso tudo significa que esse trabalho no Brasil exige que a gente continue a construir mais pontes entre o empreendimento científico e a sociedade, que a gente envolva a sociedade não só na apropriação de resultados, mas também na discussão dos pressupostos, onde vamos atuar, que linhas são essas. Era esse o espírito da Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação. É isso que está presente nos comitês gestores. Isso é a postura que define a atuação do CGEE. É um grande esforço coletivo e se a sociedade absorve, pelas mais variadas razões, política, cultural, imaginárias, econômicas, que esse é um empreendimento constitutivo do nosso século, do nosso tempo, que ele se reflete e transborda na nossa vida, OK, estamos num patamar interessante. Se isso não ocorre, é um combate ingrato, aí fica aquele chororô chato. Queremos um bom chororô, aquele vigoroso, porque a queixa lamurienta é pobre e ignora que essas são conquistas a serem feitas. Esse é um processo que exige a compreensão mútua e a incorporação da questão científica e tecnológica é um direito de cidadania.

Lana Cristina



Nota do Managing Editor: Esta entrevista, veiculada pela Agência Brasil na rubrica Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente, secção Fala de Ciência Quem Sabe, foi introduzida no Website da Radiobrás em 01 de fevereiro de 2002.
(http:www.radiobras.gov.br)

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