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ENTREVISTAS

Entrevista exclusiva ao LQES NEWS de Ricardo Ferreira, Químico, Professor Emérito da Universidade Federal de Pernambuco.




Ricardo Ferreira.

Créditos: UFPE



Ricardo Ferreira nasceu no Recife, em 16 de Janeiro de 1928. Bacharel em Química pela Universidade Católica de Pernambuco, 1951. Livre Docente, UFPE, 1957, Professor Titular da mesma UFPE, 1962. Pesquisador do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, Rio de Janeiro, 1957, 1960-61, 1980-85. Pesquisador Emérito, CBPF, 1999. Research Fellow, California Institute of Technology, Pasadena, California, 1959-1960. Visiting Professor, Indiana University, Bloomington, Indiana, 1963-64. Associate Professor, Columbia University, New York, 1965. Research Fellow, Oxford University, 01 Semestre, 1975. Professeur Extraordinaire, Université de Genève, 02 Semestres, 1975. Professor Visitante, Departamento de Química, USP, 1978; Professor Titular, Universidade Federal de São Carlos, 1979-1980; Professor Titular, Departamento de Física, UFPE, 1981-85; Professor Titular, Departamento de Química Fundamental, UFPE, de 1986 até Aposentadoria, 1991. Visiting Professor, Chemistry Department, University of Michigan, East Lansing (Michigan), 1991; Visiting Professor, Department of Physics, University of California at San Diego, 1992, 1996, 1998. Membro da Academia Brasileira de Ciências, 1964; Membro da Academia de Ciências do Estado de São Paulo, 1980. Publicou 125 trabalhos científicos, 4 livros e 7 Capítulos de Livros. Orientou 11 Mestrandos e 8 Doutorandos. Professor Emérito da Universidade Federal de Pernambuco.



LQES - Professor Ricardo, o Senhor foi um dos primeiros químicos brasileiros a freqüentar uma grande instituição de pesquisa americana, no caso, o Caltech. O que o motivou a fazer essa escolha e qual a situação da pesquisa em Química no Brasil àquela época?

R. Ferreira - Quando eu cursava o terceiro ano do Curso Colegial, no Recife, em 1945, meu Professor de Química era o Dr. Hervásio Guimarães de Carvalho, que logo depois foi para o Rio de Janeiro e se tornou um dos grandes físicos experimentais do Brasil, centrado no C.B.P.F. Hervásio dava algumas aulas sobre a ligação química e nos disse que o grande pesquisador nesta área era Linus Pauling, em Pasadena, Califórnia. Descobri então que existia à venda, na Livraria Imperatriz, de Berenstein & Irmãos, alguns poucos exemplares do livro de Pauling, e comprei logo um. Portanto, quando pensava, poucos anos depois, em fazer pesquisa num grande centro, o Caltech e Pauling eram minhas referências preferidas.
Acontece que, em 1950, meu amigo Tetsuo Yamane, que não se adaptara à Química ensinada por alguns professores da Alameda Glette, resolveu, creio que por meios próprios, fazer o Curso de Química no Caltech. Começou então uma intensa correspondência entre eu e Tetsuo. Como ele, eu não me adaptara à Química normalmente ensinada na Glette, e voltei ao Recife em 1951, sem ter obtido o Diploma de Bacharel. Felizmente na Universidade Católica de Pernambuco havia um Curso de Bacharelado em Química, e o seu Reitor, Padre Bragança, aceitou minha transferência, para o segundo ano, como a Lei requeria.
Quando, em 1958, já Professor-Assistente da Escola de Química da UFPE, tive a grande sorte de receber uma bolsa da Fundação Rockefeller, escolhi o Caltech como Instituição para freqüentar, o que fiz entre 1959-1960.
Como vocês podem ler na resposta à pergunta seguinte, a posição de Linus Pauling, a partir, pelo menos, da publicação do seu livro "No More War", fora abalada frente aos ricos homens que formavam o "Board of Trustees" do Caltech. Tetsuo resolveu esta situação aceitando um convite para se doutorar com um grande físico-químico do Caltech, Norman Davidson.
Esta era a situação quando lá cheguei em Janeiro de 1959.

LQES - Sempre que falamos em Linus Pauling, sentimos que o Senhor fica particularmente "tocado". Qual foi sua relação com Pauling e/ou com a obra dele?

R. Ferreira - Ao chegar ao Caltech, eu procurei trabalhar, junto com Tetsuo, nos problemas levantados por Davidson. Estes deram lugar, como se sabe, à descoberta de complexos de Hg(I), que normalmente se desproporcionam em Hg(II) + Hg(0). Tomei parte pequena neste Projeto, sobre a orientação de Tetsuo e Davidson, mas freqüentava, sempre que possível, as aulas de Pauling, que ainda mantinha um Curso em Ligações Químicas. Pauling foi o melhor expositor de tópicos avançados de Química que conheci. No final da minha feliz estadia em Pasadena, não apenas pude cooperar um pouco com Tetsuo e Davidson, como, através das discussões que procurava ter com Pauling, publiquei nos anos seguintes três artigos de Química Teórica, um no "Nature" e dois nos "Transactions of the Faraday Society". Minha admiração por Pauling, realmente, não tinha limites. Mesmo porque, além da sua Ciência, ele cada vez mais se envolvia, junto com sua esposa, Ava Helen, com os Problemas da Paz Mundial.

LQES - O Brasil tem um traço cultural que, às vezes, beira à perversidade: esquece com muita facilidade pessoas importantes do cenário científico ou cultural, isto para não falar de outras áreas. Não sei se o Senhor concorda com isso, mas, a propósito, quem foi Luiz Freire?

R. Ferreira - Acho muito bom e pertinente que vocês me façam esta pergunta. Luiz Freire, nascido no Recife em 1896 tinha todas as características intrínsecas de um grande Físico Teórico, mas nascera, digamos assim, antes da hora. Formara-se como Engenheiro na nossa Escola de Engenharia de Pernambuco - depois incorporada à UFPE - mas a sua vocação era mesmo para estudos de Física. Foi mesmo convidado pelo grande, pelo inesquecível Anísio Teixeira para lecionar Física Geral na Universidade do Distrito Federal, criada no Rio de Janeiro, em 1934 ou 35, pelo grande Prefeito, o pernambucano Pedro Ernesto. Mas ocorreu uma campanha nos círculos mais reacionários contra a UDF, e ela foi aos poucos morrendo, obrigando Freire a voltar para o Recife.
Freire descobriu e encaminhou para o Sul do Brasil dois dos maiores Físicos que o Brasil já conheceu, Mário Schemberg e José Leite Lopes.
Com a vitória das Nações Unidas, em 1945, um vento novo começa a soprar e, para dar um exemplo memorável, em 1949 cria-se o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, no Rio, aproveitando-se, em parte, o entusiasmo suscitado pelas notáveis descobertas de César Lattes, que obtivera o seu Bacharelado em Física com Gleb Wataghin, na USP.
Freire também apoiou com entusiasmo a criação do nosso CNPq, em Janeiro de 1951, ainda na administração Dutra, tornando-se um Membro muito notável do seu Conselho Superior.
Não tenho dúvida da grande habilidade de Freire. Se ele é pouco conhecido é porque nasceu, em parte, fora do tempo apropriado.

LQES - A Química no Século XX foi, em grande parte, marcada pela molécula individual. Como o Senhor vê a transição que hoje se coloca quando falamos da Química Supramolecular?

R. Ferreira - Parece-me que as grandes áreas da pesquisa química, hoje, estão nas biomoléculas e nos chamados novos materiais. Os seres vivos são, sem dúvida, formados por complexas associações de moléculas poliméricas. Da mesma maneira há um grande interesse pela Astroquímica, e não se pode garantir que os materiais dos novos planetas - especialmente os extra-solares - sejam estritamente semelhantes aos planetas do nosso Sol, pois condições extraordinárias podem ter moldado a sua formação. Associações de moléculas comuns, isto já sabemos, podem dar lugar a supramoléculas importantes. Mas creio firmemente que as supramoléculas são regidas pelas conhecidas leis da Mecânica Quântica.

LQES - O Senhor, há algum tempo, escreveu um texto sobre o químico italiano Stanislao Canizzaro. Por que este ilustre cientista despertou o seu interesse?

R. Ferreira - A minha contribuição sobre Canizzaro, que viveu entre 1826 e 1910, decorreu do fato de que, antes de Canizzaro, as estruturas moleculares da maioria das substâncias não eram conhecidas com um grau de confiança razoável. Somente em 1855 é que Canizzaro publica seu trabalho: "Resumo de um Curso de Filosofia Química", no qual, revivendo consistentemente o Princípio do seu conterrâneo Amadeo Avogadro, consegue estabelecer as fórmulas moleculares corretas da maioria das substâncias. Este trabalho teve um êxito notável na I Conferência Internacional de Química, realizada em Karlsruhe, na Alemanha, em 1860. Quem se interessar pelo gênio de Canizzaro pode ler meu pequeno artigo sobre ele, na revista "Chemistry", vol. 43, pp.12-13, de dezembro de 1970. Curioso, este artigo sobre Canizzaro faz parte de uma seqüência de trabalhos que publiquei no "Chemistry", graças à amizade que tinha pelo editor, Theodor Benfey, sob o título geral de "Chemists' Involvement in Society".
Porque Canizzaro lutara ao lado de Garibaldi pela unificação da Itália, ele é, assim, também um herói nacional da Itália.

LQES - Muito grato, Mestre, por sua disponibilidade. Muito sucesso e continuidade para a sua brilhante carreira.


Nota do Managing Editor: entrevista feita pelo Professor Oswaldo Luiz Alves - Coordenador do Laboratório de Química do Estado Sólido (LQES) e Editor Científico do LQES Website e do LQES NEWS -, em maio de 2008.


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