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ENTREVISTAS

O exemplo que vem de Toronto.


Morando há vinte anos no exterior, onde concluiu os cursos de mestrado e doutorado na área de física, o brasileiro Fábio de Almeida ocupa atualmente o cargo de diretor da Fundação de Inovação Tecnológica da Universidade de Toronto, no Canadá. Misturando os sotaques mineiro (ele é natural de Belo Horizonte) e norte-americano, ele diz que nos últimos 20 anos está se consolidando nas universidades do mundo inteiro uma certa tendência em ampliar seu leque de atividades para o lado do empreendedorismo. Para ele, isso não quer dizer que a academia esteja abandonando sua principal função, aquela de formar cérebros e gerar conhecimento. Significa, apenas, que o mundo acadêmico está encontrando outras maneiras de contribuir com a sociedade. Em entrevista ao Jornal da Unicamp (JU), Almeida, que participou do Campinas Inova 2003, detalhou a atuação da Agência de Inovação canadense.





JU - Quais as políticas básicas para o funcionamento da Fundação?

Almeida - A universidade tem um sistema misto. O inventor que atua na universidade pode pedir a propriedade intelectual de sua invenção mas tem de dar à universidade 25% dos lucros. Esse professor não é obrigado a comercializar seu produto através da fundação, mas como esta é a melhor opção, a maior parte das invenções acaba sendo encaminhada para nós.

JU - Como a fundação avalia os inventos desenvolvidos pelos pesquisadores?

Almeida - A avaliação inclui quatro aspectos principais. O primeiro é o aspecto pessoal. Uma das coisas mais importantes no processo de transferência de tecnologia é a química entre o professor-inventor e o proprietário da empresa que irá licenciar o produto. O segundo fator é o científico e tecnológico, ou seja, a invenção tem de funcionar. O terceiro fator está ligado ao marketing e o quarto à propriedade intelectual. Se o projeto é aprovado, é feito um contrato por dois anos e a fundação assume os custos do patenteamento e passa a trabalhar para o pesquisador numa estratégia para licenciar o produto ou abrir uma empresa que irá produzi-lo.

JU - Não há risco para o pesquisador?

Almeida - O pesquisador não tem risco algum. É uma parceria na qual a fundação assume todos os riscos. Se dentro de dois anos a fundação não conseguir promover essa tecnologia, o inventor tem o direito de receber de volta as patentes sem dever nada à fundação.

JU - Quando o empreendimento dá certo, como são divididos os lucros?

Almeida - Assim que a invenção foi avaliada e aceita ela se torna um projeto. Nesse fomento, há um acordo negociado entre o inventor e a fundação. Se a idéia, por exemplo, é muito nova, a divisão dos lucros gira em torno de 50% para cada parte. Se a pesquisa atingir um certo nível no mercado, a fundação também tem direito de comprar ações da companhia a preços mais baixos, negociados de antemão. Esses contratos são muito bem feitos. Mas a fundação faz tudo, desde o registro das patentes até a interação com empresas potencialmente interessadas, plano de marketing, plano de negócios, sem nenhum custo para o inventor.

JU - Desde a sua última reestruturação, há quatro anos, quantos projetos já passaram pela fundação?

Almeida - Há quatro anos a média era de seis projetos por ano. Atualmente são 180 por ano. Nós temos de avaliar todos os aspectos e decidir como encaminhar cada caso.

JU - Desses 180 quantos se transformam realmente em novos negócios?

Almeida - Normalmente uma em cada quatro invenções não é aceita para ir adiante. Os demais seguem para as outras fases, mas não de maneira uniforme. Às vezes há dificuldades na parte de financiamento, outras vezes na área de marketing. Há algumas características que definem a forma de comercialização da invenção. Se, por exemplo, for uma invenção de plataforma, que pode sustentar várias outras tecnologias, então pode-se pensar em abrir uma companhia. Mas se o projeto é do tipo verticalizado, que não pode sustentar outras tecnologias, então o caminho mais indicado é o licenciamento. Atualmente, cerca de um em cada dez projetos tem potencial para gerar uma companhia nova.

JU - Como é a estrutura da fundação em termos técnicos?

Almeida - Nós temos assessorias jurídica, financeira e de contabilidade. Mas a parte que desenvolve os projetos é composta por acadêmicos e está dividida em três áreas. Uma área de ciências da vida; outra de engenharia e ciências físicas; e uma terceira área voltada para formação de tecnologia. Atualmente nossa estrutura está sobrecarregada porque tem havido um crescimento de 50% ao ano no volume de projetos novos.

JU - Em sua opinião, a iniciativa de criar uma agência de inovação ligada a uma universidade pública é um bom caminho para ajudar no processo de inovação tecnológica num país como o Brasil?

Almeida - De um modo geral, as universidades do mundo inteiro são conservadoras. A formação acadêmica consolidou essa tradição de formação científica. Existe uma certa tendência de se pensar que o conhecimento gerado na universidade é algo muito puro e que a sua aplicação tecnológica significaria uma espécie de mancha no contexto acadêmico. É indiscutível que a principal função da universidade é gerar conhecimento. Mas também é inegável que de uns tempos para cá está havendo uma certa tendência ao empreendedorismo, que deve ser compreendido como um retorno que a universidade dá à sociedade. Isso é feito através do próprio ensino, mas também pode ser feito através da ampliação do impacto que a produção científica pode provocar na sociedade.

JU - Estaria havendo uma mudança de paradigma?

Almeida - A universidade teve nos últimos tempos um raciocínio na base do "ou publica ou perece". Esta é uma mensagem negativa. Chamo a esta mensagem de dois "pês". Nós precisamos trocar esta mensagem pelo modelo dos três "pês", que são "patenteie, publique e prospere", nessa ordem. Trata-se de uma mensagem positiva. Queremos que o pesquisador, antes de publicar um trabalho, consulte a fundação para saber se o seu trabalho não poderia ter um impacto na sociedade muito maior do que a sua simples publicação. Normalmente, o cientista escreve em publicações científicas para outros cientistas. Mas quando se desenvolve um produto que pode melhorar a qualidade de vidas das pessoas, então o impacto é muito maior.

Nota do Managing Editor: Esta entrevista foi veiculada pelo Jornal Unicamp, de 19-25 de maio de 2003, tendo sido realizada por Clayton Levy.

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