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ENTREVISTAS

Educação é o melhor presente para os filhos.


Quem senta à mesma mesa que a física norte-americana Mildred Dresselhaus fica encantado com sua tranqüilidade. Os cabelos brancos, os olhos, a saia estampada e a blusa de crochê conferem à mulher de 73 anos um ar ainda mais manso, caseiro. Mais meigo. Ao começar a falar sobre o que lhe compete, porém, Mildred espanta jovens pesquisadores e cientistas tarimbados, e consegue, ainda assim, traduzir a física para o leigo. Mostra ter propriedade sobre o assunto em qualquer situação. Em suas palestras, nos Estados Unidos e no mundo, ressalta que o maior investimento que os pais podem fazer em seus filhos é a educação. Mildred sabe não só de fenômenos físicos. Sabe da vida.

Mais que anos de experiência, a nova-iorquina carrega um currículo de dar inveja. Ph.D pela Universidade de Chicago, ela já foi membro do Departamento de Energia dos Estados Unidos, do Instituto Americano de Física, presidiu as sociedades americanas de Física e para o Progresso da Ciência, compôs quadros do governo, ganhou cerca de 50 títulos de honra e já teve, entre dezenas de trabalhos publicados, pelo menos três projetos patenteados. É um dos nomes mais respeitados da comunidade científica internacional. Especialista em nanotecnologia, a professora titular do Instituto de Tecnologia de Massachussetts (MIT) esteve durante a semana que passou em Campinas. Falou sobre fontes alternativas de energia à comunidade presente no auditório da Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL), e deu palestra sobre nanotubos de carbono no Laboratório Nacional de Luz Síncrotron..


Em entrevista à equipe do Cenário XXI, Mildred falou sobre a evolução da pesquisa brasileira, o reconhecimento de Campinas fora do País e da importância de a comunidade perceber a ciência em sua vida. Abaixo, trechos da conversa.


Correio Popular - Qual a avaliação que a senhora faz da Ciência e Tecnologia brasileiras?

M. Dresselhaus - Eu não tinha muita familiaridade com a comunidade científica brasileira. A primeira vez que estive aqui foi em 1971, mas tenho notado que o nível de conhecimento científico do Brasil tem crescido muito, de forma impressionante. Principalmente no que diz respeito à graduação. O nível educacional, nessa área, melhorou muito.

Correio Popular - A senhora acredita que essa também seja a opinião dos cientistas estrangeiros? Como o Brasil é visto pelo resto do mundo nessa área?

M. Dresselhaus - Depende do ramo da ciência. Na física, por exemplo, conheço bem a Sociedade Brasileira de Física. Seus membros têm trabalho de nível internacional, conheço vários deles, já vi muitos em revistas científicas. Nessa parte houve e tem havido grande progresso. Por outro lado, a parte de engenharia, mais voltada para o desenvolvimento de produtos industriais, não está tão desenvolvida.

Correio Popular - Atualmente, a indústria brasileira ainda absorve poucos cientistas para o desenvolvimento de pesquisas...

M. Dresselhaus - Esse é um aspecto negativo para a indústria, porque ela limita o desenvolvimento. Se não há pesquisa na indústria, ela fica estagnada. Nas universidades temos vários exemplos de desenvolvimento da ciência. Mas o que realmente é necessário é que a indústria pegue essas idéias e as coloque em produtos, as transforme em coisas concretas. Acredito que a nova fase do Brasil, talvez nos próximos dez anos, será de aproximação cada vez maior entre os acadêmicos e as indústrias brasileiras. Isso já está começando, à base de contatos um a um, mas penso que vai crescer. Acho que existem muitas oportunidades para que as indústrias brasileiras aproveitem o que está sendo feito nas universidades em termos de pesquisa e, a partir daí, consigam fabricar produtos inovadores.

Correio Popular - Como tem sido a participação de brasileiros em programas e pesquisas internacionais?

M. Dresselhaus - A presença de brasileiros é bastante significativa, se levarmos em conta a distância do Brasil e países da Europa e Estados Unidos e o alto custo para viajar. O Brasil tem programas que deveriam ser motivos de orgulho do País. Como o Programa Sanduíche, onde o professor pode recomendar que o aluno vá para fora, passe um período médio de um ano, trabalhando em laboratórios no mundo inteiro e, dessa maneira, consiga aumentar seu nível educacional. São programas que funcionam muito bem, produzem resultados excelentes. As pessoas que participam dos programas têm uma motivação muito, muito grande, bastante encorajadora. Tudo isso deveria ser visto como investimento, porque se um jovem é enviado para fora, para estudar ou trabalhar em laboratório, é claro que quando ele volta para seu país ele devolverá isso, colocando o que aprendeu em prática. Isso é feito pelas universidades, mas as indústrias deveriam também mandar seus profissionais promissores para treinamentos fora.

Correio Popular - Qual a projeção de Campinas no cenário mundial da Ciência e Tecnologia?

M. Dresselhaus - Quando vim à primeira vez para cá, em 1971, a cidade não tinha projeção lá fora. A comunidade científica internacional conhecia apenas São Paulo e Rio de Janeiro. De Campinas, conhecia-se apenas a Universidade, a Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Hoje, sim, Campinas é reconhecida em nível internacional, provavelmente porque existem mais centros de desenvolvimento e de pesquisa tecnológica do que existia há 30 anos e algumas empresas que fazem esse papel.

Correio Popular - Qual a importância de os cidadãos perceberem que a ciência está presente em suas vidas e qual o melhor jeito de levar a ciência à comunidade?

M. Dresselhaus - É importante que as pessoas comuns, não-cientistas, tenham mais contato com pesquisa e tecnologia. Primeiro porque nosso padrão de vida é afetado, diariamente, por elas. Imagine o que eu fazia, o que os seus pais faziam e o que você pode fazer agora. A qualidade de vida melhorou muito. Claro que existe o aspecto negativo de tudo isso, como o desemprego, a poluição, mas são os próprios cientistas que têm de lidar com isso, buscar soluções para esse tipo de problema, porque o mundo não pode parar.

Nota do Managing Editor: entrevista concedida a Tatiana Fávaro, rfavaro@rac.com.br, publicada no jornal Correio Popular, de Campinas, de 26 de outubro de 2003, na rubrica Cenário XXI (Conhecimento, Tecnologia e Informação), p. B 8. A foto que figura nesta entrevista não é a mesma veiculada pelo jornal e foi obtida em www.google.com.

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