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CULTURA DA QUÍMICA

Transmutação dos Metais: um velho tema revisitado
Oswaldo Luiz Alves

Resumo

Este artigo enfoca a "transmutação dos metais", valendo-se de escritos de J. Marcus de Vèze, publicados em 1902. Desta obra, procurou-se destacar vários aspectos: idéias do Autor e seus contemporâneos sobre a transmutação dos metais, a evolução da Química, bem como informações acerca de supostas realizações de experiências de interconversão de prata em ouro, nos Estados Unidos. Finalmente, é apresentada uma descrição de dois procedimentos que, segundo De Vèze, permitiriam (??) a obtenção do chamado "ouro alquímico".

Introdução

A questão da Transmutação dos Metais tem recebido as mais variadas considerações, seja na direção de simples aceitação ou refutação dos procedimentos da Alquimia, seja na recolocação do problema dentro do contexto dos procedimentos científicos e tecnológicos disponíveis atualmente. Sobre estes diferentes aspectos existe grande quantidade de material bibliográfico, sendo a maioria não disponível em nosso país.

Nossas várias visitas à biblioteca do Arsenal, em Paris, possibilitaram-nos contacto com uma variedade bastante significativa de títulos que tratavam do assunto, com ênfase principalmente no período onde os procedimentos da Alquimia eram extensivamente praticados.

Naquela oportunidade, deparamo-nos com um opúsculo denominado La Transmutation des Métaux et L'Or Alchimique - L'Argentaurum de J. Marcus de Vèze, editado em 1902 e reeditado em 19772. Dentre os vários aspectos abordados, dois, efetivamente, chamaram nossa atenção, por sobressaírem-se às demais obras. O primeiro, sua data de publicação: 1902 - observe-se que já em pleno século XX e, o segundo, o sub-título: "Divers procédés des fabrication avec lettres et documents à l'appui"3.

É importante situar um pouco mais o início do século XX, quando este livro foi publicado, para que se tenha uma noção temporal dos acontecimentos. Este "début" de século ficou marcado por importantes descobertas e novas concepções científicas. Dentre elas, podemos citar a determinação da carga do elétron, por Millikan; a presença do núcleo nos átomos, por Rutherford; o conceito de quantum, por Planck; o efeito fotoelétrico, por Einstein, entre outros. A própria tabela periódica de Mendelev apresentava, já em 1869, idéias avançadas sobre as propriedades periódicas dos elementos.

É inacreditável que manipulações tidas como "transmutação de metais" - com base em procedimentos da Alquimia - tenham resistido e, de algum modo, coexistido até esta época. Mais inacreditável ainda, é que o resultado de algumas destas operações chegassem a ter importância comercial.

Nosso intuito, nesta compilação, é unicamente revelar alguns destes fatos tratados no livro de De Vèze. Escusado dizer que para um químico de nossos dias, um texto como este reveste-se de uma aura de certo encantamento e, percorrê-lo, transforma-se em algo bastante especial, instigante e, porque não dizer: surpreendente!

É, pois, dentro desta perspectiva, que procuraremos levantar alguns aspectos da obra, naquilo que - salvo melhor juízo - possa trazer de informações àqueles que se interessam pelas estórias e pela História da Química.

Perspectiva e relatos de Vèze

J. M. de Vèze introduz a obra fazendo umas tantas observações ao leitor. Ressalta o fato de que há séculos, homens vêm se perguntando sobre a possibilidade de se fazer ouro por transmutação; se, por exemplo, é possível transformar o cobre em prata e esta em ouro. Indagam-se, igualmente, sobre a Pedra Filosofal, o Ouro Potável ou mesmo o Elixir da Vida: teria existido? Como objetivo de sua obra o Autor coloca o estudo destas questões e pretende demonstrar que a Pedra Filosofal ou o Pó de Projeção, o Ouro Potável ou o Elixir da Vida, ou mesmo a Transmutação existem já há milhares e milhares de anos, fazendo referência aos egípcios como um dos povos da antiguidade que já dominavam o modo de fazer o ouro alquímico.


Figura 1 - Fac-Símile do livro de De Vèze .(a) folha de rosto. (b) folha de registro.

A definição dada ao metal é, no mínimo surpreendente. De Vèze, o compara a "um verdadeiro animal" que, tendo "vida própria", auxilia na sua própria transformação e, a seguir, em sua transmutação. Acrescenta, ainda, que aquilo que a Natureza levou séculos e séculos para realizar, o homem pode conseguir em tempo bem menor, em poucos meses, dias até, graças a utilização da Eletricidade, mais especificamente ao uso de dínamos (p.l).

Destas e outras considerações depreende-se ter havido pelo menos duas linhas de pensamento principais, no que dizia respeito à evolução dos metais. A primeira, que admitia que esta evolução cessava quando fosse alcançado o estado de prata ou mesmo de ouro. Atingir o estado de metal nobre, significava atingir a perpetuidade. A segunda, admitia uma evolução contínua, isto é: atingida a perfeição, haveria um retorno a um "estado imperfeito", de modo que os processos de transformação molecular continuariam incessantemente através dos séculos.

O Autor atribui a Rudolphe Glauber4, a segunda maneira de enfocar o problema. Entretanto, acrescenta que Paracelso5 foi um pouco além ao afirmar que, sob a influência dos astros e do sol, os metais vís (pobres) não só se transformariam em ouro ou prata, como também poderiam se transformar em pedras, e que os minerais se desenvolveriam à maneira das plantas, através de uma espécie de semente, os mais tarde chamados "fermentos de Tiffereau" (p.2).

É através das palavras de Girtanner de Goetingue6 que o Autor coloca a primeira questão sobre o desenvolvimento da transmutação: "La transmutation des métaux sera généralement connue au XIXe siècle, car tous les Chimistes sauront faire de l'or". Assim, admite ele a transmutação como fato inquestionável, apoiado em provas que arrola, e acredita que todos os homens de ciência que "estudarem seriamente e de boa fé" esta questão, não terão dúvidas quanto aos resultados que passará a descrever (p.4).

A visão do estudo da Química no início do século XX merece ser destacada. Segundo De Vèze, é surpreendente que "espíritos superficiais" neguem a transmutação, a despeito dos meios de investigação postos à disposição e do que se sabia de Química, se bem que, acrescenta: "esta ciência [a Química ]seja ainda relativamente pouco avançada". A leitura aqui denota a Química como uma ciência nascente diferente, portanto, da Alquimia.

Outro aspecto digno de realce é que, apesar de considerar a Química como ainda incipiente para aqueles dias, De Vèze aponta para um grande futuro, na qual a Química proclamaria a Unidade da Matéria. Segundo ele, nos novos dias, não só a transmutação dos metais se processaria, mas "a transformação de tudo". Cita, como exemplo, a obtenção de alimentos pela utilização de toda a sorte de substâncias. A abrangência desta colocação certamente permitiu ao Autor tecer considerações a respeito das modificações que poderiam ocorrer na situação econômica da humanidade e, ainda, sobre as transformações radicais que poderiam ter lugar na organização social se, por exemplo, o ouro fosse um metal tão comum quanto o ferro (p.6).

Dentro desta perspectiva de Unidade da Matéria, o Autor remete-nos a uma descoberta americana: o Ouro alquímico denominado Argentaurum. Tal descoberta coloca em cena o químico americano Dr. Stephen H. Emmens, de Nova York, seu inventor.

Várias considerações são feitas sobre a "efervescência" que a referida descoberta causou na época, e, certamente, também sobre a negativa da química oficial em aceitar esta Unidade, mesmo que a nível de hipótese. Segundo De Vèze o "grande químico Berthelot, não obstante ser um cientista dos mais oficiais, não estava muito longe de admitir tal Unidade".

A maneira como o Autor formulou as idéias sobre a Unidade da Matéria nos pareceu sobremodo interessante, razão pela qual traduzimos aqui, dentro de toda fidelidade possível e requerida para o caso, os trechos mais significativos:

"De acordo com a teoria da Unidade da Matéria, todos os corpos nada mais são do que compostos atômicos homogêneos, emprestados ao éter7 e submetidos a forças que os podem influenciar por combinações diversas, daí a diversidade dos corpos formados pela matéria Única" (p.8).

"Cada corpo possuí, então, sua autonomia especial, sua autonomia característica, se assim podemos dizer, nos seus agregados atômicos; os corpos são diferenciados por forças diversas, sob a dependência das quais está colocada a matéria Única. É do estudo destas forças que deverá se ocupar nossa ciência moderna, para, primeiro, chegar à transmutação dos metais e, aos produtos orgânicos, em seguida" (p.8).

"Não nos esqueçamos de que foi a transmutação que criou a nossa química moderna. Dizemos frequentemente, e não será demasiado repeti-lo, que ela, portanto, prestou um grande serviço à Humanidade" (p.9).

A esta altura é colocada a questão: como explicar, agora, a teoria da transmutação?

Diríamos que a resposta, ainda mais do que interessante, é instigante:

"...É muito difícil, no estado atual da ciência, explicar a transmutação, uma vez que a interpretação dos fenômenos de materialização e de desdobramentos tem até aqui escapado aos cientistas. Ë evidente, que no dia cm que eles possam explicar a quarta dimensão ou a interpenetração da matéria sólida8 poderão nos revelar também a teoria da transmutação..." (p.9).

Apesar das várias considerações tendentes à aceitação da idéia da Unidade, naquela ocasião a Revue Générale des Sciences admitia ser o Argentaurum nada mais do que um mito. De Vèze relata ainda a opinião de Joseph Godfroy:

"...conhecemos muito pouco a estrutura interna daquilo que denominamos átomos ou moléculas dos corpos simples. Tão pouco, que não podemos afirmar que seja um dia impossível trazer por um instante os átomos de prata ao estado de fragmentos, a fim de, em seguida, os elevar à dignidade de lingotes de ouro. Nada nos autoriza dizer, com certeza, que o sol brilhará no próximo ano" (p.9).

e, continua, "... daquilo que podemos depreender prejulgando os cientistas oficiais, seus espíritos estão perfeitamente prontos para receber com alegria a revelação de uma "transmutação de metais", seriamente demonstrada" (p.9).

Godfroy prossegue fazendo o seguinte comentário:

"A demonstração é, para o cientista de nossos dias, mais mágica que a pedra filosofal (ela é a mais mágica das coisas) e nenhum obstinado a resiste. Se o Dr. Emmens tinha convertido uma significativa quantidade de prata em ouro, o que não acredito por falta de provas, ele teria, por algum tempo pelo menos, colocado dúvidas sobre a representação de riqueza" (p. 10).

e finaliza:

"...Tal descoberta seria para a ciência uma estrela a mais na noite que contempla todos os dias. O espírito público ama o maravilhoso, a descoberta de raros tesouros antigos e a Astrologia. No meio mais elevado, a teoria possível da Unidade da Matéria ressuscita de tempos em tempos os Alquimistas. No momento, não há nada a pensar, nem a acreditar com relação ao Argentaurum, uma vez que nada de preciso ainda nos foi dito" (p.10).

A despeito destas considerações, De Vèze mostra-se convicto: "L'or Alchimique a existé dans le passé, donc il existe"9.

Valeria a pena apresentar um pouco mais de detalhes sobre o Argentaurum. De acordo com o Autor, que teve recurso a material publicado pela Revista Cosmos, que registrara a descoberta do Dr. Emmens, a produção se deu em 6 de abril de 1897, pela "interconversão" da prata e do ouro. O primeiro lingote de prata transformada em ouro, obtido no laboratório do Sindicato do Argentaurum, teria sido vendido ao National Bureau of Standards (NBS). Na Tabela 1, a seguir, são fornecidos os dados do NBS para o estabelecimento do preço do lingote para o governo americano.

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Tabela 1. Características e preço do Argentaurum (p. 12)
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peso antes de fusão
peso após a fusão
peso de ouro
peso de prata
valor do ouro contido no lingote
valor da prata
despesas com análise
valor líquido pago ao Sindicato
7,06 onças11
7,04 onças
65,80 %
26,00 %
95.76 dólares
1.11 dólares
1.22 dólares
95.65 dólares
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Com relação ao Dr. Emmens, acrescenta o Autor tratar-se de pesquisador conhecido no Novo-Mundo, sendo membro de várias sociedades científicas, entre elas: American Chemical Society, American Institute of Mining Engineers, lnternational Society of Electricians, bem como inventor do Emmensite - explosivo utilizado pelo governo americano na proteção da região costeira - e de um método de tratamento de zinco sulfuroso. Publicou também o Argentaurum Papers onde expõe suas idéias sobre a composição dos Corpos. Os procedimentos que utilizou eram de propriedade de uma sociedade financeira constituída de para auferir os lucros de sua descoberta, daí não terem sido divulgados.

O acesso que o Autor teve à correspondência particular do Dr. Emmens permitiu a obtenção de mais informações sobre a orientação do trabalho do mesmo. Dentre estas, particularmente representativa foi a resposta enviada a Sir William Crookes12, membro da Royal Society de Londres, em 21 de março de 1897. Tal resposta constituía-se de onze itens, dos quais apresentamos a seguir alguns excertos:

"...vejo o diamante e o grafite como intercambiáveis do ponto de vista molecular, o que quer dizer que os observo como compostos de uma mesma substância, apresentando condições diferentes de arranjos moleculares. Uma vez que o diamante é convertido em grafite, poder-se-á, corretamente, denominar Transmutação à mudança sofrida. Entretanto, esta palavra, tem estado por longo tempo sempre ligada à variação da substância, podendo, portanto, por seu emprego, causar falsas interpretações"(p.13).

...por interconversibilidade do ouro e da prata, do ponto de vista molecular, não entendo nem mais nem menos do que aquilo que acabo de dizer a propósito do diamante e do grafite. Dessa maneira, suponho (como a maior parte dos químicos) que o universo é formado de uma única matéria. Os elementos químicos são os modos desta substância combinada com uma maior ou menor quantidade daquilo que chamamos energia. Ao modificarmos o modo, modificamos o elemento, mas não a substância. Não transmutamos, portanto, no sentido do termo convencional adotado pelos alquimistas"(p.13).

"... nas últimas experiências estamos empregando dólares mexicanos (sic) que submetemos a cinco manipulações seguintes:

a) tratamento mecânico
b) ação de um fundente e granulação
c) tratamento mecânico
d) tratamento por compostos oxigenados de nitrogênio (óxido de nitrogênio, isto é, ácido nítrico modificado
e) refino (p.15).

"... não quero assegurar que o metal obtido por esta experiência, ou produzido por nosso laboratório em condições econômicas bem mais vantajosas, seja realmente ouro. Para mim, me satisfaz considerá-lo como tal, mas não quero obrigar Vossa Excelência, nem quem quer que seja a compartilhar de minha opinião. Tudo que importa aos membros do Argentaurum Syndicate é saber se o Tesouro dos Estados Unidos compraria nosso metal ao preço de ouro. O tesouro americano já comprou 3 lingotes e estamos preparando o quarto. Atualmente, temos seis lingotes aceitos, o que perfaz um tota1 de 955.10 dólares" (p. 16).

    "...quando a nova máquina de força estiver funcionando, poderemos produzir 50.000 onças por mês" (p. 17).

    "não poderia deixar de ser menos explícito ao escrever a um homem cuja autoridade científica se impõe a todo mundo. Atenciosamente, ..." (p. 17).

O Autor deixa claro, e a leitura da carta permite depreender que, se o químico americano não realizou a transmutação da prata em ouro, pelo menos deve ter "inventado" um procedimento que dá à prata o valor de ouro, uma vez que o tesouro dos Estados Unidos comprou os lingotes fabricados a preço de ouro!

São relatadas, também, as experiências feitas por M. Tiffereau13, realizadas em 1847, portanto antes das do Dr. Emmens, nas quais a transmutação é obtida por simples procedimentos químicos. "Na natureza todos os caminhos levam à Roma", comentava De Vèze. Apresentamos abaixo o procedimento de M. Tiffereau:

"após ter exposto o ácido nítrico puro, durante dois dias, à ação dos raios solares, adicionei a este limalha na forma de uma liga de prata e cobre puros, na proporção das ligas da Casa da Moeda. Uma forte reação se manifesta, acompanhada da liberação abundante de gás nitroso; em seguida, o licor é deixado em repouso, permitindo-me observar um depósito abundante de limalha intacta, aglomerada na forma de uma massa" (p. 18).

"... a liberação de gás nitroso continuava sem cessar; deixei o líquido em repouso durante 12 dias e observei que o depósito aumentava sensivelmente de volume. Adicionei um pouco de água ao dissolvido, sem que fosse formado qualquer precipitado. Deixei o licor em repouso durante 5 dias. Durante este tempo, não deixaram de ser liberados novos vapores"(p.19).

"...passados os cinco dias, coloquei o licor em ebulição, e o mantive nesta condição até que não houvesse mais a liberação de vapores nitrosos, sendo que, em seguida, fiz a evaporação até a secura" (p. 19).

..tratando então esta matéria com ácido nítrico puro e em ebulição durante 10 horas, vi a matéria se modificar para um verde claro, sem deixar de estar agregada em pequenas massas; adicionei uma nova quantidade de ácido puro concentrado e levei novamente à ebulição, foi então que vi, enfim, a matéria desagregada tomar o brilho do "ouro natural". (grifos nossos) (p.19).

"... recolhi este produto e sacrifiquei uma grande parte para submetê-la a ensaios comparativos com o ouro natural puro. Não me foi possível constatar a menor diferença entre o ouro natural e ouro artificial que acabava de produzir" (p.19).

Tiffereau chama atenção para o fato de ter realizado sua primeira experiência em Guadalajara e a segunda em Colima, ambas cidades mexicanas, onde os fenômenos se produziram igualmente. Realizou ainda outra experiência em Guadalajara onde, segundo ele, "toda a quantidade de liga que utilizou na experiência se transformou inteiramente em ouro puro".

Experiências iguais jamais puderam ser realizadas na França devido às condições climáticas. No México, sob a ação do sol escaldante, e também, talvez, sob a influencia de fermentos particulares presentes na atmosfera da região, rica em minas de ouro, estas experiências, segundo o Autor, tiveram êxito.

De Vèze chega a acreditar que as afirmações do Dr. Emmens dão um "cunho sério àquelas de M. Tiffereau, parecendo difícil admitir que o grande químico americano tomasse parte de um negócio escuso, não tendo outro objetivo senão o de lançar ações e subtrair dinheiro de um público crédulo, vendendo ao Tesouro Americano ligas fabricadas com prata e ouro pré-existentes". Acredita ainda que os detratores fizeram muito estardalhaço sobre o Argentaurum, visando tão somente uma especulação na Bolsa sobre as minas de ouro do Transvaal14.

A Revista Hyperchimie, quando de seu aparecimento, apresentava como proposta colocar-se acima das rotinas da ciência catalogada e oficial, bem como propagar a Alquimia. Em seu número 10, de outubro de 1897, na coluna 8, apresenta sob o título: "Recette pour l'or artificiel" um outro procedimento de preparação que abaixo transcrevemos15:

"... Tome partes iguais de limalha de ferro, enxofre sublimado e antimônio e misture. Coloque num cadinho e esquente ao rubro durante oito horas. Pulverize o lingote, calcine até que o enxofre tenha evaporado. Misture 2 partes deste pó com uma parte de bórax, calcine e refunda. Pulverize, dissolva em ácido clorídrico comercial (sic) e deixe durante 1 mês sob a ação de calor moderado. O licor deve ser destilado 3 vezes. Obtêm-se, então, um pó vermelho na retorta. Sem dúvida, mistura de óxido de antimônio e cloreto de ferro. O pó dissolvido numa solução concentrada de cloreto de antimônio é evaporado e misturado em pesos iguais com o sublimado. Repetir até que um óleo avermelhado passe. É preciso impregnar este óleo com cloreto de prata fresco. Secar, pulverizar e misturar com 5 partes de chumbo fundido e, ao cortar, obter-se-á, então um terço da prata transformada em ouro (grifos nossos) (p.29).

A B

Figura 2(a) - A criança no ovo simboliza a coloração vermelha que anuncia o fim da Grande Obra.

Figura 2(b) - Conjunção, união ou casamento do Rei e da Rainha, Enxofre e Mercúrio, Ouro e Prata. O sol e a lua relacionam-se ao Rei e á Rainha. Os aparelhos de destilação e a chuva ao fundo indicam que, durante a operação de conjunção, ocorrem fenômenos de emissão de vapor e de condensação. O padre, símbolo da união, é o sal.

Fonte: "Theories & Symbols des Alchimistes - Le grande Oeuvre, Editora Chacornac, Paris (1978). Esta edição é um fac-simile da edição original de 1891.

Para De Vèze, a transmutação nunca foi objeto de dúvida. Admite ele, inclusive, que não existiria apenas um procedimento para se processar esta transformação. O que lhe chama atenção é o fato de que "os procedimentos [para a obtenção do ouro alquímico] do século XVI tivessem ficado por tanto tempo perdidos".

O Autor, em seu livro, faz referência a contatos estabelecidos entre M. Tiffereau e o Dr. Emmens, nos quais o último comunica que iria ao México a fim de repetir sua experiência, sendo que resultados preliminares o autorizavam crer que em poucas semanas enviaria um "espécimen" do autêntico ouro Tiffereau.

Outro fato marcante citado diz respeito à realização da experiência de transformação para os membros da Academia de Ciências da França. Quem realizou tal experiência teria sido o eminente químico M. Henry Moissan, servindo-se de cadinhos oficiais e dínamos potentes. O método, é verdade, comenta De Vèze, difere daqueles dos Mestres da Grande Arte.

Vários alquimistas realizaram a transmutação, dentre eles são citados: Louis de Neuss. Ed. Kelley, Nicolas Flamel, Imperatriz Barbe (Segunda esposa do Imperador Sigismundo da Alemanha), Van Helmont, Helvétius, Bérigarde de Pise e Cyliani.

Resumindo suas conclusões, acredita De Vèze ter reunido provas cabais que demonstraram que a "transmutação não é um mito, uma utopia, mas, sim, uma operação científica, uma realidade tangível", como já disse no início da obra.

Nesta compilação, procuramos levantar os aspectos que nos pareceram mais interessantes e importantes sobre o livro De Vèze. Não tivemos, fique claro, a pretensão de realizar qualquer análise histórica ou mesmo filosófica dos diferentes conceitos emitidos. Objetivamos, isto sim, compartilhar com os leitores o fascínio desta informações, esperando que as mesmas possam auxiliar no despertar do interesse por estes outros aspectos de nossa, ainda, tão pouco conhecida e, por isso mesmo, mal-amada Química. 

Agradecimentos

Agradecemos a Maria lsolete Alves pela cuidadosa revisão do texto e aos assessores pelas sugestões apresentadas. 

Referências e Notas

  1. Trata-se de uma das Bibliotecas mais completas existentes na Europa sobre textos ligados a Alquimia.
  2. A edição de 1977 é uma reprodução da edição 1902, feita pela Édition JBG, 57 avenue Montaigne, 75008, Paris.
  3. Tradução: "Diversos procedimentos de fabricação com cartas e documentos de apoio".
  4. Médico e químico alemão, nascido em Amsterdan (1604-1668), descobridor do sulfato de sódio (sal de Glauber).
  5. Alquimista e médico suíço, pai de medicina hermética. Nascido em Einsiedeln, próximo a Zurique (1493-1541).
  6. Médico, escritor e político, nascido em Saint-Gall, Suiça (1760-1800). Morreu em Goetingue. "A transmutação dos metais será de conhecimento geral no século XIX, uma vez que todos os químicos saberão fazer ouro" Philosophie Magique, T VI, p.383.
  7. Éter, neste contexto, não tem o significado da substância líquida e volátil utilizada como solvente mas, sim, o fluído sutil que preenchia todos os espaços.
  8. Sobre estas considerações podem ser encontradas maiores detalhes no artigo de Ernest Bosc, publicado na revista L'Initiation, no 10, julho, 1901.
  9. Tradução: " O ouro alquímico existiu no passado, logo, ele existe".
  10. Revista Cosmos, no 653, p.132.
  11. 1 onça equivale a 28,35g.
  12. Químico e físico inglês, nascido em Londres (1822-1919). Descobridor do elemento Tálio e inventor do radiômetro e dos tubos ou ampolas chamados de Crookes.
  13. Alquimista francês do século XIX, escreveu a obra " L'or et la transmutation des Metaus" [" O ouro e a transmutação dos Metais"], editado pela editora Chacornac, Paris, 1889.
  14. Nome antigo da África do Sul.
  15. Tradução: " Receita para o ouro artificial". No livro, J.M. de Vèze dedica um espaço apreciável as propostas e impactos causados por esta revista.
  16. As notas 6, 7, 8 e 10, constam do livro de J.M. De Vèze, as demais foram introduzidas pelo autor deste artigo. As notações entre parênteses correspondem às páginas do original.  


Nota do Autor: Este artigo foi primeiramente veiculado em Química Nova, vol 12, páginas 202-208, em 1989. O autor agradece à Sociedade Brasileira de Química pela autorização para veiculação deste material através de processos eletrônicos.

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